Bill Lawrence construiu uma reputação invejável na TV, de Scrubs a Ted Lasso. Seis anos depois de trabalhar exclusivamente para a Apple, o roteirista e produtor desembarca na HBO Max com Rooster, série que tenta equilibrar afeto, humor discreto e dramas familiares.
Nos seis primeiros episódios disponibilizados para a imprensa, a produção mostra o que Lawrence sabe fazer de melhor: criar um ambiente convidativo e personagens cheios de manias. Ao mesmo tempo, deixa claro que ainda procura foco narrativo para alcançar o nível de suas obras anteriores.
Um campus liberal como palco de afeto e constrangimento
Rooster acompanha Greg Frasier, romancista de pulp noir interpretado por Steve Carell, que enfrenta um divórcio complicado ao mesmo tempo em que tenta reconfortar a ex-mulher Katie, vivida por Charly Clive. Quando Katie é abandonada pelo marido, Greg aceita dar aulas de escrita na mesma faculdade de artes liberais onde ela leciona, criando uma convivência carregada de nostalgia e atrito.
O cenário universitário funciona como personagem adicional. Salas de aula, corredores repletos de cartazes engajados e o gabinete cafona do presidente do campus (John C. McGinley) dão ritmo dinâmico à comédia. Esse tipo de espaço íntimo lembra o clima aconchegante que Lawrence já explorou em Scrubs, mas aqui há frescor suficiente para que Rooster tenha identidade própria.
Piadas surgem naturalmente, mas tropeçam na crítica à cultura PC
Lawrence e o cocriador Matt Tarses optam por humor contido, mais focado em constrangimento do que em gargalhadas estrondosas. Carell abusa dos “dad jokes”, enquanto mal-entendidos geram silêncios desconfortáveis que soam muito reais. Quando alguém cai ou bate numa porta, a sequência física é breve e eficaz, sem parecer coreografada para o riso fácil.
Entretanto, o texto se complica ao satirizar pautas de correção política. Um aluno, por exemplo, é apresentado quase como caricatura do “guerreiro da justiça social”, reduzindo discussões importantes a estereótipos. A intenção pode ser equilibrar visões, mas a execução inclina-se mais ao deboche do que à reflexão, deixando a crítica vazia.
Personagens femininas e arcos que patinam
Outro ponto frágil é a consistência das figuras femininas. A série até reconhece que Greg escreveu mulheres rasas em seus romances, mas repete o erro quando trata de Katie, Cristie (Annie Mumolo) e Sunny (Lauren Tsai). Todas mostram nuances em cenas isoladas, apenas para voltarem a servir de apoio ao protagonista logo depois.

Imagem: Katrina Marcinowski/HBO
A própria trama parece concluir cedo demais. Após dois episódios, o rompimento entre Katie e Archie não evolui; o possível romance de Greg com Sunny estaciona; e os demônios internos que deveriam impulsionar mudanças pessoais permanecem intactos. A narrativa volta em círculos, como se esperasse um grande evento que nunca chega.
Elenco mantém a série viva apesar do roteiro disperso
Se o roteiro escorrega, o elenco compensa. Steve Carell domina a arte do constrangimento charmoso, equilibrando insegurança e tiradas espirituosas. Charly Clive entrega dores e ironias de forma seca, conseguindo virar desafogo cômico e motor dramático na mesma cena. Danielle Deadwyler adiciona energia ao interpretar Dylan, colega que desafia Greg a encarar a própria estagnação.
Veteranos de Bill Lawrence, John C. McGinley e Phil Dunster surgem com performances bizarras e antagonistas, adicionando tempero às interações no campus. São essas presenças — e não a progressão da história — que mantêm Rooster pulsante até o gancho deixado no fim do sexto capítulo.
Vale a pena assistir a Rooster?
Rooster não atinge a coesão de Ted Lasso ou a inventividade clínica de Scrubs, mas oferece atmosfera acolhedora e elenco carismático. Para quem curte comédias de caráter, elege bons momentos ao revelar fragilidades humanas com leveza. Se a temporada completar as lacunas apresentadas nos primeiros episódios, pode conquistar espaço de destaque na grade da HBO Max — e garantir assunto para muita discussão no Salada de Cinema.



