As comédias românticas voltaram a ganhar fôlego no streaming, mas poucas arriscam mergulhar em temas espinhosos. Amores à Parte, produção de 2025 estrelada por Dakota Johnson, decide fazer justamente isso ao testar a paciência de quem já desistiu de finais fáceis. O longa, disponível no catálogo do Prime Video, inicia como passatempo leve e aos poucos transforma o riso em desconforto, sem perder o ritmo pop que o gênero exige.
Dirigido por Michael Angelo Covino e escrito em parceria com Kyle Marvin, o filme acompanha três casais com noções muito distintas de compromisso. Entre piadas pontuais e diálogos afiados, a narrativa tateia desejos reprimidos, inseguranças e a moda aparentemente libertária dos relacionamentos abertos. O resultado é uma experiência que prioriza atuações, deixando espaço para reflexões sem discurso moralizador.
Direção milimetricamente desconfortável
Michael Angelo Covino, também visto em cena como Paul, conduz Amores à Parte apostando em planos longos e cortes econômicos. A decisão cria tensão constante, já que o público permanece “preso” à mesma tomada enquanto os personagens revelam pequenos segredos. A aproximação lembra a câmera inquieta de alguns dramas independentes, mas ganha coloração mais viva para não afastar quem procura humor romântico.
O diretor manipula enquadramentos apertados dentro de carros, banheiros ou cozinhas, favorecendo a sensação de claustrofobia emocional. O simples trajeto inicial de Carey pela estrada expõe a técnica: o acidente visto à distância não vira espetáculo visual, e sim gatilho para a implosão do casamento retratado. Ao insistir em mostrar rostos em close, Covino transforma expressões mínimas em peças-chave da história.
Elenco equilibra ironia e vulnerabilidade
Dakota Johnson continua somando projetos que fogem do estereótipo “mocinha impecável”. Aqui, a atriz interpreta Julie, mulher que abraça o modelo poliamoroso, mas carrega no olhar certa pontada de cansaço. Johnson evita gestos expansivos: uma pausa na fala ou um sorriso contido bastam para indicar dúvidas que a personagem tenta camuflar.
Kyle Marvin, além de corroteirista, assume o papel de Carey, marido recém-abandonado em plena estrada. Seu desempenho transita entre ingenuidade e ressentimento, criando empatia mesmo quando as reações beiram o exagero. Já Adria Arjona, como Ashley, domina as cenas em que a frustração explode. O trio constrói sintonia gradual, reforçando a proposta de que, neste universo, amizade e desejo ocupam fronteiras borradas.
Roteiro disseca relações contemporâneas
Assinado por Covino e Marvin, o texto encara a liberdade sexual como moeda corrente, mas não transforma o tema em panfleto. A comédia surge de silêncios constrangedores: Julie convida Carey para o banheiro enquanto ele toma banho; Paul observa, desconfiado, cada aproximação. A sequência parece gag clássica, porém funciona como radiografia de insegurança masculina sob verniz progressista.
Imagem: Divulgação
A estrutura do roteiro divide a trama em pequenos episódios, quase como crônicas de um mesmo universo. Cada núcleo apresenta novas variações de ciúme, arranhando qualquer noção de felicidade instantânea. Ao fim de 104 minutos, o filme oferece poucas respostas, preferindo deixar o público refletindo — estratégia semelhante à vista em produções que testam limites de gênero, como o suspense O Patrão: Radiografia de um Crime, disponível no mesmo streaming.
Técnica e ritmo sustentam o tom agridoce
Além da fotografia saturada, responsável por sublinhar a atmosfera veranil, a trilha aposta em canções pop que contrastam com as tormentas internas dos personagens. Não há excesso de música; quando surge, funciona como respiro cômico. Os créditos iniciais, por exemplo, embalam imagens felizes antes de mergulhar no caos do acidente, criando expectativa dissonante.
A montagem cumpre papel decisivo para que a comédia romântica não se arraste. Cortes secos e transições rápidas deslocam o público de um diálogo íntimo para um jantar coletivo, evitando explicações redundantes. O dinamismo lembra a cadência de Como Não Perder Essa Mulher, outra comédia do Prime Video que valoriza edição ágil na construção de ritmo. Em Amores à Parte, a escolha garante que reflexões sobre monogamia apareçam sem paralisar a narrativa.
Vale a pena assistir?
Para quem busca romances convencionais, Amores à Parte pode soar mais ácido do que reconfortante. Ainda assim, a produção coleciona 9/10 em nota interna do estúdio e chegou ao Prime Video cercada de elogios a Dakota Johnson. A interpretação contida da atriz, somada à direção precisa de Michael Angelo Covino, transformou a obra em destaque no catálogo. O espectador encontra humor, drama e crítica social embalados em 104 minutos de diálogo direto com a geração que repensa modelos afetivos. O Salada de Cinema seguirá acompanhando a repercussão do filme entre assinantes do streaming.



