O mercado de séries de super-heróis vive um paradoxo curioso. Há um volume cada vez maior de estreias, mas poucas mantêm o nível que as apresentou ao público. Em muitos casos, os roteiristas parecem encontrar o tom ideal logo no primeiro ano e, a partir daí, o desafio passa a ser simplesmente não decepcionar.
A lista abaixo mostra seis produções que encontraram o seu ápice inicial e, por razões variadas, nunca recuperaram o fôlego. A avaliação foca no desempenho do elenco, nas escolhas de direção e na condução dos roteiros, sem recorrer a achismos. Salada de Cinema compilou os pontos centrais de cada caso.
Antologia que perdeu o encanto: What If…?
A primeira temporada de What If…? entregou à Marvel Studios um laboratório criativo em que Jeffrey Wright, Samuel L. Jackson e Hayley Atwell revisitavam versões alternativas de seus personagens. A direção de Bryan Andrews optou por um ritmo rápido, explorando conceitos como o Doutor Estranho sombrio e o Ultron invencível, episódios que se tornaram referência dentro da própria franquia animada.
Nos anos seguintes, o roteiro — comandado por A. C. Bradley — escorregou ao priorizar conexões com o MCU em vez de histórias autocontidas, desperdiçando a liberdade que o formato de antologia proporciona. A crítica mais frequente recai sobre a necessidade de criar um arco unificado, movimento que engessou a atuação vocal de nomes como Lake Bell e Benedict Cumberbatch. O potencial quase ilimitado terminou encurtado para três temporadas.
Universo animado da DC: Batman Beyond e Harley Quinn
Batman Beyond estreou em 1999 sob a batuta de Bruce Timm, deixando claro, já nos dois primeiros episódios, como a voz de Will Friedle encontraria eco no peso dramático trazido por Kevin Conroy. O roteiro de Alan Burnett expôs a motivação de Terry McGinnis de forma concisa, enquanto o design futurista de Neo-Gotham oferecia combustível visual. A partir da segunda temporada, porém, a consistência de vilões originais deu lugar a tramas menos coesas, e a química entre Conroy e Friedle recebeu menos espaço.
Harley Quinn, por sua vez, chegou em 2019 convertendo Kaley Cuoco numa versão rasgada e autoconsciente da personagem. Na temporada de estreia, o texto de Justin Halpern usou uma lupa na emancipação da anti-heroína, equilibrando humor mordaz e desenvolvimento emocional. O problema surgiu quando as temporadas subsequentes aumentaram o teor de paródia e, segundo parte da crítica, esgotaram o frescor das piadas meta-linguísticas. Embora episódios pontuais, especialmente da terceira temporada, exibam momentos de brilho, a construção de arco se tornou dispersa.
Vale lembrar que o tom de sátira deliberada, inicialmente celebrado, passou a dividir a comunidade de fãs — fenômeno parecido com o que se observa em comédias consolidadas, como apontam os debates sobre as cenas de The Big Bang Theory que hoje soam constrangedoras.
Anti-heróis do streaming: The Punisher e Jessica Jones
The Punisher chegou em 2017 carregado pela intensidade física de Jon Bernthal. Na temporada inaugural, Steve Lightfoot — criador e showrunner — moldou um duelo catártico entre Frank Castle e Billy Russo (Ben Barnes). O texto equilibrava violência explícita com reflexões sobre trauma militar, e a química entre Bernthal e Ebon Moss-Bachrach mantinha o suspense. O segundo ano trouxe Giorgia Whigham para renovar o elenco, mas o arco dramático de Castle não alcançou o mesmo impacto, diluindo o conflito central.
Imagem: Disney/Marvel
Jessica Jones, também produzida pela Marvel/Netflix, teve na primeira leva a força de David Tennant como Kilgrave, antagonista que explorava o passado da heroína interpretada por Krysten Ritter. A criadora Melissa Rosenberg entregou capítulos compactos, amarrados por uma atmosfera noir. Com a saída de Tennant, o segundo ano perdeu foco e apostou em múltiplas subtramas, deixando Ritter sustentar quase sozinha o peso dramático. A terceira temporada recuperou em parte o fôlego com um antagonista mais ameaçador, porém já sem a sinergia entre coadjuvantes que marcara a estreia.
Ambas as séries ilustram um dilema recorrente no streaming: como evoluir anti-heróis sem descaracterizá-los? Enquanto serviços como Netflix buscam longas franquias — caso de produções citadas no artigo sobre séries com fôlego para décadas —, a falta de um arco planejado até o fim costuma cobrar preço alto.
Formação de heróis: Young Justice e o efeito elenco inchado
Lançada em 2010, Young Justice se destacou por apresentar um elenco reduzido de heróis juvenis, permitindo que cada voz — Jesse McCartney, Khary Payton, Danica McKellar — crescesse em tela. O roteiro de Greg Weisman e Brandon Vietti investiu em ameaças constantes e desenvolvimento gradual de personagens, fórmula que se provou eficiente na primeira temporada.
O salto temporal de cinco anos no segundo ano aumentou a escala, mas também dispersou a atenção do público. Novos integrantes surgiram mais rápido do que o roteiro conseguia aprofundá-los, e parte da química original se perdeu. Mesmo com a chegada ao HBO Max e a tentativa de resgate nas temporadas três e quatro, a série não recuperou o equilíbrio entre intimidade e grandiosidade que havia marcado a estreia.
Vale a pena revisitar essas séries de super-heróis?
Para quem busca estudar construção de personagens e escolhas de direção, todas as seis produções ainda oferecem lições valiosas — sobretudo nos episódios iniciais. As performances de Jon Bernthal, Krysten Ritter, Kaley Cuoco e da dupla Friedle/Conroy merecem atenção, assim como o trabalho de voz em What If…? e Young Justice. Entretanto, é importante calibrar a expectativa: depois do primeiro ano, cada título apresenta oscilações que podem frustrar quem aguarda evolução linear.




