Prometida como um thriller de alto impacto, a minissérie Steal chega ao Prime Video com seis episódios que colocam Sophie Turner no centro de um intricado roubo bilionário. A trama, ambientada em Londres, tenta mesclar investigação policial, drama corporativo e cenas de ação, mas nem sempre entrega a adrenalina anunciada.
Mesmo com falhas de ritmo e reviravoltas pouco surpreendentes, a produção encontra fôlego nas atuações principais — sobretudo Turner, que interpreta Zara Dunne, testemunha‐chave do desvio de bilhões de libras em fundos de pensão. A seguir, o Salada de Cinema analisa os pontos altos e baixos da obra.
Elenco injeta energia onde o roteiro vacila
Sophie Turner assume o protagonismo com segurança, construindo uma Zara distante das figuras heroicas tradicionais. A atriz retrata a exaustão da funcionária subpagada e, ao mesmo tempo, a hesitação de quem carrega nas costas um segredo capaz de derrubar executivos e criminosos de elite. Essa mistura de fragilidade e determinação mantém a atenção do espectador mesmo quando o enredo demora a avançar.
Jacob Fortune-Lloyd, como o investigador Rhys Covac, complementa Turner ao oferecer o olhar cético da lei. O intérprete evita caricaturas do “detetive cansado” e transforma Covac num profissional convicto, mas não cego a atalhos morais. A dinâmica entre os dois sustenta boa parte da tensão, especialmente em sequências de interrogatório que revelam o desgaste psicológico de ambos.
Há ainda Archie Madekwe, responsável por Luke, colega e confidente de Zara que adiciona leveza ao ambiente corporativo. Apesar de aparecer menos que o aguardado, o ator consegue tornar crível a amizade dos personagens e reforça o dilema ético em torno do roubo.
Roteiro oscila entre boas ideias e execução morna
Assinada pelos roteiristas Greg Brenman, Rebecca de Souza e Sam Miller, a narrativa de Steal parte de um ponto promissor: uma testemunha comum envolvida num golpe sofisticado. O episódio de estreia apresenta o furto dos fundos de pensão e define as posições de cada peça no tabuleiro — criminosos anônimos, uma polícia pressionada e uma protagonista dividida entre a culpa e o dever.
O problema surge nos capítulos seguintes. A série desacelera bruscamente, privilegiando diálogos expositivos e investigações paralelas que pouco acrescentam ao suspense. Enquanto a trama procura manter em sigilo a identidade dos ladrões, os antagonistas acabam relegados ao segundo plano, enfraquecendo a sensação de perigo constante que um thriller costuma exigir.
As reviravoltas, embora numerosas, seguem um padrão previsível. Muitos ganchos se resolvem rápido demais ou carecem de impacto dramático, o que compromete o envolvimento do público. Quando o desfecho chega, a resolução parece menos explosiva do que o grande esquema financeiro prometia.
Direção equilibra drama de escritório e cenas de ação modestas
Sam Miller, que também assume a direção, demonstra habilidade para construir climas de tensão silenciosa. Sequências em open space, repletas de olhares desconfiados e conversas sussurradas, transmitem a paranoia de quem teme ser descoberto em meio às mesas de trabalho. Esses momentos reforçam o caráter cinzento do mundo corporativo retratado.
Imagem: Divulgação
Nos instantes de ação, entretanto, a direção opta por set pieces contidos. Há perseguições pontuais e confrontos com armas de fogo, todos filmados de maneira clara, mas sem o vigor cinematográfico encontrado em thrillers de maior orçamento. Ainda assim, a montagem consegue manter ritmo suficiente para que a narrativa não estagne por completo.
Um ponto positivo é a forma como Miller contrasta espaços amplos — salas de reunião envidraçadas — com becos estreitos e estacionamentos mal iluminados, destacando a dualidade entre a fachada respeitável dos executivos e o submundo de fachada onde o dinheiro some.
Aspectos técnicos sustentam a atmosfera, mas não salvam a obra
A fotografia aposta em tons frios e luz difusa, criando uma sensação constante de ameaça. A paleta azul-acinzentada reforça o desconforto dos personagens e dá uniformidade visual à produção. Já a trilha sonora utiliza sintetizadores discretos, suficientes para pontuar picos de tensão sem se sobrepor às atuações.
O design de produção merece crédito por recriar escritórios luxuosos, delegacias claustrofóbicas e apartamentos modestos, ressaltando as disparidades entre classes que perpassam o enredo. No entanto, esses méritos técnicos não compensam a falta de profundidade no desenvolvimento dos criminosos nem a ausência de um clímax à altura do roubo bilionário.
Em termos de edição, o trabalho é competente, mas algumas passagens repetem flashbacks explicativos que quebram o ritmo. A escolha de inserir esses retornos ao passado indica receio de que o público se perca na linha temporal, o que, por consequência, subestima a atenção do espectador.
Vale a pena assistir a Steal?
Para quem busca um drama criminal impulsionado por boas atuações, Steal entrega momentos de tensão suficientes, sobretudo graças à entrega de Sophie Turner e Jacob Fortune-Lloyd. Entretanto, a minissérie escorrega na construção do suspense e oferece consequências menos impactantes do que o golpe bilionário sugeriria. Em suma, é um passatempo moderado que brilha no elenco, mas carece de ritmo para se firmar como um grande thriller.



