Rock Springs chega aos cinemas norte-americanos em 25 de janeiro de 2026 carregando a promessa de aliar drama familiar contemporâneo a um massacre de imigrantes chineses no século XIX. O longa, escrito e dirigido por Vera Miao, tem apenas 96 minutos, mas pretende falar de luto, racismo e trauma geracional usando a roupagem de um filme de horror.
A combinação chama atenção: Kelly Marie Tran, Jimmy O. Yang e Benedict Wong lideram o elenco enquanto a diretora de fotografia Heyjin Jun cria imagens capazes de estampar pôster. O resultado, no entanto, divide opiniões: o terror histórico acerta em atmosfera e performances, mas exibe costuras visíveis entre suas duas linhas temporais.
Terror histórico abraça dois tempos, mas tropeça na costura
O roteiro de Rock Springs se divide entre presente e passado. Na atualidade, Emily (Tran) tenta reconstruir a vida em uma casa isolada no Wyoming após a morte do marido. A solidão ao lado da filha e da sogra — que não fala inglês — deixa o luto ainda mais claustrofóbico. Já nas cenas ambientadas na década de 1850, Wong e Yang dão vida a mineiros chineses que sonham com riqueza suficiente para voltar à Ásia.
À medida que as manifestações sobrenaturais surgem, as duas realidades colidem. A ideia é potente: o fantasma coletivo de um massacre esquecido invade a rotina de uma família que mal consegue nomear a própria dor. Ainda assim, a montagem alterna blocos tão distintos que o público pode ter a sensação de assistir a dois filmes. O drama contemporâneo avança, pausa, e então o terror de época tenta assumir o controle sem transição orgânica.
Direção de Vera Miao combina horror corporal e comentário social
Vera Miao, conhecida pela série Two Sentence Horror Stories, estreia na direção de longas com ambição temática. Ao lado de Heyjin Jun, a cineasta cria quadros oníricos, fumaça cortando luz amarelada e close-ups que realçam o desconforto físico dos personagens. As influências de body horror lembram produções analisadas em The Beauty: horror corporal e humor ácido fazem parte da estética, mas aqui o susto tem peso mais dramático.
O uso de gore não é gratuito. Miao associa a violência gráfica ao trauma da diáspora chinesa, algo raramente explorado no cinema de gênero norte-americano. Em vários momentos, a câmera se detém em detalhes desconcertantes que ecoam Cronenberg, gerando tensão palpável. Entretanto, quando a narrativa precisa conectar esse terror visceral ao luto de Emily, o filme desacelera e o ritmo cadenciado pode espantar quem busca sustos constantes.
Elenco liderado por Kelly Marie Tran sustenta emoção
Se a costura narrativa falha, o elenco faz o possível para não deixar a experiência ruir. Kelly Marie Tran repete a boa fase iniciada no suspense Control Freak e entrega uma protagonista presa entre desorientação, tristeza e paranoia. A atriz evita histeria fácil; em vez disso, aposta em silêncios que comunicam exaustão.
Imagem: Divulgação
Jimmy O. Yang, lembrado pelo humor ácido de Silicon Valley, surpreende pela contenção. Seu mineiro carrega sonhos inalcançáveis e medo engolido dia após dia. Yang traduz isso com poucos gestos e olhos fixos no chão, criando contraste com a brutalidade ao redor. Já Benedict Wong humaniza os trabalhadores chineses, reforçando que antes de vítimas eles eram homens com família e planos.
O trio consegue manter a plateia engajada mesmo quando o roteiro se dispersa. Atores coadjuvantes têm poucas falas, mas ajudam a compor a sensação de comunidade destruída. Essa escolha lembra a construção coral de Sirat transforma busca familiar em experiência sensorial, exibido em Cannes, embora Rock Springs prefira a lente do horror à eletrônica rave do longa europeu.
Fotografia e efeitos elevam a experiência sensorial
Heyjin Jun utiliza paletas distintas para cada tempo: tons terrosos e iluminação à lamparina para o passado, azuis frios e verdes dessaturados no presente. O contraste reforça a distância histórica e, ao mesmo tempo, aponta para a conexão sobrenatural que o filme tenta estabelecer. Quando as realidades se sobrepõem, as cores se misturam em transições suaves de luz, sugerindo que passado e presente dividem o mesmo espaço físico.
Os efeitos práticos ganham destaque nas cenas de possessão e mutilação fantasmagórica. O design sonoro acompanha de perto cada estalo de osso, cada respiração contida, criando imersão que lembra produções como The Muppet Show: especial da ABC mistura nostalgia e irreverência — guardadas as devidas proporções, já que aqui o objetivo é causar desconforto, não humor.
Vale a pena assistir Rock Springs nos cinemas?
Rock Springs é um pacote com brilho técnico inegável: fotografia inspirada, uso competente de body horror e elenco afinado. A falta de coesão entre as duas tramas, porém, impede que o filme alcance impacto total. Ainda assim, para quem valoriza interpretações fortes de Kelly Marie Tran e Jimmy O. Yang ou busca ver o terror abordando episódios apagados da história norte-americana, o longa oferece material suficiente para justificar a ida ao cinema. O Salada de Cinema estará de olho na eventual confirmação de estreia no Brasil.



