O Morro dos Ventos Uivantes volta às telas em 13 de fevereiro de 2026 e, antes mesmo da estreia, já sacudiu a crítica especializada. Com 71 % de aprovação no Rotten Tomatoes, o longa garante a segunda melhor avaliação entre as adaptações do romance gótico de Emily Brontë — perde apenas para o clássico de 1939, que alcançou 96 %.
Dirigido e roteirizado por Emerald Fennell, vencedora do Oscar por Bela Vingança, o filme aposta em uma leitura moderna e provocativa da relação entre Catherine Earnshaw e Heathcliff. No centro da discussão estão as atuações de Margot Robbie e Jacob Elordi, elogiadas pela química, mas cercadas de controvérsias sobre fidelidade e escalação de elenco.
Primeiras impressões da crítica
Os primeiros 49 reviews indicam um cenário promissor. O selo “Fresh” logo de saída posiciona a produção à frente de todas as versões filmadas nas últimas cinco décadas. Para efeito de comparação, a adaptação de 2011, dirigida por Andrea Arnold, abriu com 69 % e encerrou sua passagem nos cinemas sem ultrapassar essa marca.
A pontuação atual pode oscilar — o agregador costuma receber novas análises ao longo das pré-estreias —, porém já coloca O Morro dos Ventos Uivantes de Fennell num patamar semelhante a romances contemporâneos que surpreenderam em bilheteria no último ano, segmento que movimentou salas lotadas em 2025.
Entre os elogios mais frequentes, destacam-se o vigor visual e a forma como a diretora traduz a paixão autodestrutiva do casal central. Mesmo críticas negativas reconhecem a ambição estética, embora apontem “estilo que por vezes sobrepõe a substância”.
O redator Gregory Nussen, por exemplo, classificou o resultado como “curiosamente contido”, apesar da ousadia prometida no material de divulgação. Já veículos focados em cinema de gênero enxergam na proposta uma bem-vinda ruptura com leituras mais tradicionais do texto de Brontë.
Atuações em destaque: Margot Robbie e Jacob Elordi
Margot Robbie assume Catherine Earnshaw com energia intempestiva, alternando fragilidade e crueldade em cena. A atriz, que também assina a produção executiva, investe em nuances para ressaltar o conflito interno da personagem — dividida entre convenções sociais e uma paixão incontrolável.
Jacob Elordi, por sua vez, entrega um Heathcliff de presença brutal. Críticos chamam atenção para o olhar gélido do ator australiano, recurso usado para salientar a faceta vingativa do protagonista. É possível notar uma preparação vocal que adiciona gravidade ao discurso, aproximando o personagem da figura literalmente “assombrada” descrita no original de 1847.
O entrosamento entre os dois sustenta as cenas mais intensas e garantiu a grande parte dos elogios. A revista Variety apontou a química como “ardiamente convincente” e responsável por tornar crível um relacionamento marcado por obsessão. No entanto, a mesma publicação questionou a maneira como o roteiro acelera passagens-chave do livro, sacrificando respiros dramáticos.
Não é a primeira vez que Elordi mergulha em personagens emocionalmente instáveis. A escolha remete à sua participação em Saltburn, também dirigido por Fennell, e reforça o interesse da cineasta em figuras moralmente ambíguas. Essa preferência por narrativas densas dialoga, de certa forma, com a abordagem de séries como O Poder e a Lei, onde a tensão cresce a partir de performances afinadas.
Olhar de Emerald Fennell para o clássico
Emerald Fennell não esconde que ultrapassou a mera transposição literária. Seu roteiro enfatiza a pulsão erótica entre Cathy e Heathcliff, destacando elementos sadomasoquistas que, segundo a diretora, sempre estiveram latentes no texto de Brontë. O resultado é um tratamento visual saturado, repleto de contrastes entre ambientes sombrios e paisagens campestres iluminadas.
Imagem: Divulgação
Em entrevistas, a cineasta explicou que buscou recriar a sensação de descontrole que o livro lhe causou na adolescência, não a estrutura exata da obra. Esse posicionamento encontra eco em outras produções recentes que adaptam clássicos sob lentes contemporâneas, como a releitura suburbana de The Burbs, estrelada por Keke Palmer.
Ao se cercar da mesma equipe criativa de Bela Vingança e Saltburn, Fennell manteve uma estética reconhecível: trilha sonora pop pincelada em momentos inesperados, composição de cena milimetricamente simétrica e figurinos que atualizam o período sem abandonar referências históricas.
O runtime de 136 minutos permite mergulhos prolongados em silêncios e olhares. Alguns críticos, porém, argumentam que a diretora se apaixona pela própria mise-en-scène e negligencia o desenvolvimento de personagens secundários, ponto em que a adaptação de 1939 ainda é considerada insuperável.
Controvérsias e fidelidade ao material de Brontë
O debate mais acalorado gira em torno do elenco. Heathcliff é descrito pela autora como um cigano de pele escura; ainda assim, Hollywood historicamente entregou o papel a intérpretes brancos, exceção feita a James Howson na versão de 2011. A escolha de Elordi reacendeu acusações de whitewashing. Fennell rebateu a crítica alegando semelhança física com ilustrações do século XIX e defendeu a opção como coerente para a narrativa pretendida.
Outra fonte de estranhamento foi o marketing que destacou cenas eróticas. Parte do público esperava foco na vingança e na violência psicológica — temas mais tradicionais da trama. A diretora respondeu dizendo que os trechos divulgados representam apenas um recorte e que “o livro é inflamado de desejo”.
Especialistas em literatura vitoriana ponderam: a essência sombria de O Morro dos Ventos Uivantes permanece, mas reinterpretada à luz de discussões contemporâneas sobre gênero e poder. Nesse sentido, a adaptação dialoga com o interesse crescente por thrillers que mesclam drama familiar e subtexto político, como visto no título Unfamiliar.
Por fim, há quem vibre com a liberdade artística. Já os puristas lamentam cortes de passagens icônicas do romance, em especial os saltos temporais que explicam a degradação física e emocional de Heathcliff. Nada disso impediu o filme de alcançar status de “segunda melhor adaptação” no ranking do Rotten Tomatoes.
Vale a pena assistir?
Se a curiosidade é medir quanta força um clássico de 179 anos ainda exerce, a resposta parece evidente: sim, vale conferir. A nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes oferece interpretações intensas, direção ousada e ritmo que desafia convenções do romance de época. Para quem acompanha o Salada de Cinema, a produção surge como termômetro do quanto Hollywood continua disposto a reimaginar grandes obras à sua própria maneira.
Mesmo sob controvérsia, a combinação de Margot Robbie, Jacob Elordi e Emerald Fennell entrega combustível suficiente para conversas apaixonadas que devem ecoar muito além dos limites dos ermos de Yorkshire.



