O desfecho de O Morro dos Ventos Uivantes, romance gótico que Emily Brontë publicou em 1847, permanece como um dos finais mais inquietantes da literatura. A trama fecha o círculo de ódio de Heathcliff, sugere fantasmas vagando pelas charnecas de Yorkshire e, ainda assim, aponta para uma centelha de renovação na geração seguinte.
Narrado em camadas por Mr. Lockwood e Nelly Dean, o livro mistura tragédia, paixão destrutiva e uma estranha sensação de paz. A seguir, reconstruímos os últimos acontecimentos e detalhamos o significado por trás dos rumores sobrenaturais que cercam a propriedade de Wuthering Heights.
Heathcliff vence a guerra, mas perde o sentido da própria vingança
Nos capítulos finais, Heathcliff finalmente assume controle tanto de Wuthering Heights quanto de Thrushcross Grange. Ele chega a esse ponto depois de obrigar Catherine Linton a se casar com seu filho, Linton Heathcliff, selando um plano de décadas para destruir as famílias Earnshaw e Linton.
Com a morte precoce de Linton Heathcliff, nada mais impede Heathcliff de humilhar Hareton Earnshaw e a jovem Catherine. Contudo, o tempo cobra seu preço: o anti-herói começa a ter visões recorrentes de Catherine Earnshaw, seu amor de infância. Consumido pela saudade, ele deixa de comer, evita contato social e passa horas caminhando pelas charnecas, como se buscasse um portal que o levasse até ela.
A morte solitária do protagonista encerra o ciclo de ódio
O momento da virada ocorre numa noite tempestuosa. Heathcliff é encontrado morto em seu quarto, com um sorriso perturbador estampado no rosto. Não há ferimentos, tampouco sinais de violência; a única pista é a janela aberta, por onde o vento uiva — metáfora perfeita para o destino de um homem que viveu possuído por sentimentos extremos.
Sem a figura temida do patriarca, a dinâmica entre os jovens muda rapidamente. Hareton, antes tratado como servo, recupera a dignidade e a herança. Catherine Linton, livre do controle tóxico do sogro, enfim vê espaço para cultivar algo além da dor: nasce ali um afeto que amadurece rumo ao casamento.
Fantasmas: alegoria ou realidade nas charnecas de Yorkshire?
Logo após o funeral de Heathcliff, surgem relatos de aparições. Moradores afirmam ter visto um homem taciturno e uma mulher de vestido branco caminhando de mãos dadas, à noite, bem perto dos túmulos de Wuthering Heights. Nelly Dean, narradora considerada racional, confirma ter testemunhado a cena. Mr. Lockwood escuta histórias semelhantes na vila, reforçando o mistério.
Imagem: Reprodução
Emily Brontë deixa a existência dos fantasmas em aberto. A ambiguidade funciona como reflexão sobre o amor obsessivo: só haveria descanso para Catherine e Heathcliff quando ambos estivessem juntos, ainda que do outro lado da vida. A frase final de Lockwood — “Não consigo imaginar sono inquieto para os que dormem naquela terra tranquila” — ecoa essa interpretação.
A esperança renasce na união de Hareton e Catherine Linton
Se Heathcliff e Catherine Earnshaw representam paixão autodestrutiva, Hareton e Catherine Linton simbolizam uma segunda chance. Eles planejam morar na Granja da Cruz do Tordo, longe das lembranças sombrias de Wuthering Heights. A mudança geográfica reforça o rompimento com o passado, criando a ideia de que o legado de violência não precisa se perpetuar.
É nesse momento que Salada de Cinema destaca o equilíbrio construído por Brontë: ao mesmo tempo em que o romance mantém sua aura sombria, apresenta uma rota de fuga para personagens que, até então, pareciam condenados à repetição.
Vale a pena conhecer O Morro dos Ventos Uivantes hoje?
Mais de 175 anos depois, O Morro dos Ventos Uivantes continua atual ao discutir relações tóxicas, classes sociais e o peso da vingança. Quem se interessar por finais abertos encontrará no desfecho de Brontë o mesmo tipo de discussão que séries contemporâneas entregam, como o episódio em que Lyonel Baratheon menciona a mãe de Baelor em O Cavaleiro dos Sete Reinos.
Por sua construção de personagens extremos e atmosfera melancólica, a obra segue indispensável para leitores e cinéfilos que buscam narrativas intensas e ambíguas. A adaptação de 2026, avaliada em 71% no Rotten Tomatoes, reforça a força da história mesmo depois de tantas releituras.


