Nuremberg, drama histórico programado para 2025 nos cinemas brasileiros, encerra seu relato com um golpe seco: Hermann Göring, já condenado, ingere cianureto minutos antes de subir ao cadafalso. O gesto interrompe o rito da justiça ali mesmo, dentro da cela, e deixa o psiquiatra Douglas Kelley sem resposta para a pergunta que o move durante todo o longa: é possível explicar racionalmente o mal?
Essa virada transforma o veredicto em ponto de partida para um debate ético que excede o tribunal. Entre atuações intensas e uma direção que evita o grandioso para explorar o íntimo, o filme de James Vanderbilt prefere o silêncio perturbador à catarse heroica – escolha que aproxima o público do incômodo sentido pelo protagonista.
O veredicto que nunca acontece
No desfecho de Nuremberg, o Tribunal Militar Internacional anuncia a sentença de morte para Göring. A execução pública, planejada como símbolo de encerramento, seria o momento de justiça oficializada. Contudo, o antigo marechal nazista vira o jogo ao tomar o próprio destino nas mãos: em vez de enforcado, morre pelo veneno que esconde há dias.
O suicídio subverte a lógica processual e rouba do tribunal o poder de concluir o caso. Para Douglas Kelley, interpretado por Rami Malek, a sensação é de derrota dupla: perde-se a chance de comprovar que a sanidade de Göring não impedia o crime e, ao mesmo tempo, frustra-se o objetivo clínico de compreender a mente por trás das ordens genocidas.
Russell Crowe e Rami Malek dominam as cenas de embate psicológico
Russell Crowe constrói um Hermann Göring consciente de cada palavra, quase sempre sentado, mas jamais passivo. O ator recorre a pausas milimétricas e a um olhar que mistura desdém e vaidade, solução que torna crível a convicção do réu de ainda controlar o destino mesmo cercado por guardas.
No contrapeso, Rami Malek assume uma postura contida, por vezes clínica demais, condizente com a formação de Kelley. A contenção, no entanto, racha em momentos-chave, especialmente na sala de interrogatório que antecede o veredicto. Ali, Malek deixa emergir o medo de não conseguir “diagnosticar” o mal. Esse choque de registros confere corpo ao estudo psicológico proposto pelo roteiro.
Direção e roteiro de James Vanderbilt evitam espetacularização
James Vanderbilt, que assina direção e roteiro, opta por planos fechados, focando reações em vez de reencenações grandiosas da guerra. Tal escolha mantém a atenção no duelo intelectual entre médico e paciente, reforçando a tese central do longa: os horrores nazistas nasceram de decisões friamente pensadas.
O texto adaptado do livro The Nazi and the Psychiatrist avança sem floreios históricos, sempre guiado pelos relatórios clínicos de Kelley. Essa ancoragem documental sustenta a atmosfera de desconforto. A câmera acompanha o psiquiatra em corredores estreitos e telas de arame, espaços que espelham a sensação de beco sem saída moral.
Imagem: Ti Morais
Impacto histórico e a pergunta que fica
Baseado em fatos, o suicídio de Göring não altera apenas a narrativa cinematográfica; ele também evidencia o limite da justiça formal quando confrontada com crimes de escala inédita. O roteiro sublinha essa frustração ao mostrar a reação dos demais réus: alguns comemoram a audácia do ex-marechal, outros temem represálias, mas todos percebem que a corte perdeu o último ato.
Para o público, resta o mesmo dilema que assombra Kelley. Se líderes capazes de planejar extermínios agem com lucidez, como separar monstruosidade de racionalidade? A provocação ecoa em dramas recentes sobre culpa e perdão, caso de Uma Segunda Chance, e reforça a proposta de Vanderbilt de transformar o julgamento em estudo de caráter, não apenas de atos.
Vale a pena assistir Nuremberg?
Nuremberg não entrega o alívio típico de filmes de tribunal. Ao abdicar da catarse, Vanderbilt oferece um relato que termina onde muitos roteiros começariam: na pergunta sem resposta. Essa decisão pode frustrar quem espera o conforto da punição explícita, mas agrada a quem busca obras que tratam história como espelho de inquietações atuais.
As atuações de Russell Crowe e Rami Malek sustentam o suspense emocional, cada qual explorando nuances poucas vezes vistas em personagens amplamente registrados pela historiografia. Michael Shannon, em participação discreta como Robert H. Jackson, completa o triângulo dramático sem roubar foco dos confrontos centrais.
Para o leitor do Salada de Cinema interessado em narrativas históricas que vão além da reconstituição de época, o longa surge como proposta vigorosa. Não oferece certezas, tampouco respostas fáceis, mas convida a revisitar um capítulo decisivo do século XX à luz de uma questão atemporal: como explicar o mal quando ele parece perfeitamente lúcido?



