Os salões londrinos voltam a ferver em Bridgerton temporada 4 – Parte 1, agora centrada em Benedict, interpretado por Luke Thompson. Depois de três anos roubando cena como o irmão boêmio, o personagem assume o posto de protagonista em uma narrativa inspirada abertamente em Cinderela.
A transição, no entanto, é menos suave do que o figurino impecável sugere. A nova leva de episódios entrega momentos mágicos, mas também tropeça ao impor um molde de “príncipe encantado” a um herói que sempre se destacou justamente por desafiar convenções.
Luke Thompson troca a rebeldia pelo terno azul–pó e nem sempre convence
O primeiro capítulo dedica-se quase inteiro ao baile de máscaras onde Benedict conhece a “Dama de Prata”, sequência pensada para ser arrebatadora. Thompson joga charme, mas o texto exagera nos clichês — o temido “você não é como as outras” sai de sua boca e quebra o encanto. É difícil crer que o libertino que se envolveu em um triângulo aberto na temporada anterior largaria convicções tão rápido.
Quando o roteiro abandona frases de efeito e volta a explorar a inquietação interna de Benedict, o ator recupera fôlego. Thompson se sai melhor nos silêncios: um olhar desconcertado ao perceber a diferença de classes ou o sorriso contido diante de uma provocação da mãe, Violet, dizem mais que qualquer grandiloquente declaração de amor.
Yerin Ha ilumina a série ao dar voz a uma nova Cinderela
A verdadeira virada acontece com a entrada de Sophie Beck, vivida por Yerin Ha. A atriz, de origem coreana-australiana, traz frescor imediato à rotina de criadas da mansão Araminta. Seu sotaque contido e a postura corporal encolhida contrastam com o brilho nos olhos quando a personagem ousa sonhar além do porão.
Ha e Thompson compartilham química palpável nas cenas em que Sophie, ainda sem revelação de identidade, cruza novamente com Benedict. A troca de farpas sobre pintura — ele, aspirante a artista; ela, conhecedora secreta de arte — funciona como termômetro de um desejo que cresce junto com o respeito mútuo.
O texto se beneficia da proposta de discutir classe social, assunto que Bridgerton sempre tangenciou. Aqui é central: Sophie não pode simplesmente aceitar o príncipe, precisa primeiro decidir se cabe no mundo dele. A atriz vende perfeitamente o dilema, ecoando o que se viu em produções que exploram choques hierárquicos, como o thriller Dinheiro Suspeito, ainda que em tom totalmente diferente.
Subtramas variam entre brilhantes e burocráticas, com destaque para Ruth Gemmell
Nem só de romance principal vive a temporada. Penelope continua escrevendo como Lady Whistledown, mas suas páginas perderam o veneno e, junto, a relevância. Nicola Coughlan faz o possível, porém o arco gira em círculos. O mesmo vale para Eloise: Claudia Jessie entrega sarcasmo, mas o material não acompanha sua energia.
Quem rouba a cena é Violet Bridgerton. Ruth Gemmell diverte e emociona enquanto sua viúva descobre o prazer maduro ao lado de Marcus Anderson (Daniel Francis). As cenas dos dois equilibram sensualidade e humor, oferecendo o tempero que falta a outras tramas. A decisão dos roteiristas de exibir desejo em personagens acima dos 40 amplia o repertório da série e rende momentos que lembram a ousadia de produções analisadas pelo Salada de Cinema em outras críticas.
Imagem: Divulgação
Do outro lado do espectro, Queen Charlotte e Lady Danbury ganham tempo considerável de tela, mas os conflitos permanecem mornos. Golda Rosheuvel e Adjoa Andoh seguem afiadas, só que a tensão política prometida nunca se concretiza, fazendo suas sequências parecerem pausas prolongadas na narrativa central.
Direção e roteiro abraçam o conto de fadas, mas pagam preço pela mudança de tom
Os showrunners Jess Brownell e Shonda Rhimes optaram por uma estrutura claramente dividida: Parte 1 introduz problema, Parte 2 promete a resolução. O risco é visível. Ao empurrar revelações para depois, os quatro primeiros episódios terminam com sensação de “prévia estendida”.
Visualmente, porém, a proposta encanta. A diretora principal, Tricia Brock, usa a metáfora do espelho para reforçar o jogo de identidades: a câmera reflete Sophie entre taças de cristal, enquadra Benedict diante de telas em branco. A fotografia quente dos bailes contrasta com a penumbra das escadarias de serviço, reforçando o fosso social.
O figurino de Ellen Mirojnick brinca com o arquétipo de Cinderela sem deixar o exagero pastel dominar. O vestido prateado de Sophie evita brilhos excessivos para ressaltar a simplicidade da personagem — recurso que ecoa no design de produção, sempre exuberante, mas funcional.
Vale a pena assistir à Parte 1 de Bridgerton temporada 4?
Apesar do tropeço inicial, Bridgerton temporada 4 – Parte 1 encontra ritmo quando confia na química entre Luke Thompson e Yerin Ha. As performances do casal central, aliadas ao carisma de Ruth Gemmell, sustentam a maratona.
Falta, ainda, afiar certos diálogos e resgatar a acidez de Whistledown, mas a série preserva seu principal trunfo: personagens que transbordam desejo, dúvidas e contradições. Quem acompanha desde o início sabe que Bridgerton costuma compensar reveses com reviravoltas emotivas, e a promessa de revelação da identidade de Sophie é forte.
Assim, a Parte 1 pode não ser a mais arrebatadora das estreias, porém mantém intacto o apelo escapista do universo criado por Shonda Rhimes. Para quem busca romance vistoso, conflitos de classe e atuações comprometidas, a temporada vale a visita — e deixa curiosidade suficiente para o que vem a seguir.



