Jujutsu Kaisen já se firmou como um dos títulos mais comentados da nova geração, lado a lado de Demon Slayer e Attack on Titan. A série, criada por Gege Akutami e produzida pelo estúdio MAPPA, alcançou essa posição sem abrir mão de um DNA próprio, mas carregando referências claras a clássicos shonen.
Este panorama investiga como cinco produções – Bleach, Naruto, Hunter x Hunter, Neon Genesis Evangelion e My Hero Academia – contribuíram para moldar o universo de maldições, pactos e horror que move Jujutsu Kaisen. Também analisamos o trabalho do diretor Sunghoo Park na primeira temporada (e de Shōta Goshozono na segunda), além da performance do elenco de voz, liderado por Junya Enoki e Yuichi Nakamura.
Bleach: monstros, espadas e um protagonista meio humano, meio “outro”
A influência mais evidente surge em Bleach, obra de Tite Kubo. Assim como Ichigo Kurosaki, Yuji Itadori é um estudante que, de forma repentina, incorpora poderes sobrenaturais para enfrentar criaturas invisíveis ao olhar comum. O designer de personagens de Tadashi Hiramatsu, ao adaptar o traço de Akutami, reforça o paralelo: uniformes escolares misturam-se a jaquetas esportivas, e o cenário urbano realista contrasta com maldições grotescas.
Na dublagem original, Junya Enoki insere em Yuji a mesma mistura de irreverência e urgência moral que Masakazu Morita imprimiu em Ichigo. Já Yuichi Nakamura, como Satoru Gojo, flerta com o arquétipo do mentor brincalhão que se esconde atrás de um sorriso despreocupado – uma espécie de Kisuke Urahara mais confiante. Essa construção vocal sustenta o tom leve que antecede cenas de extrema violência, característica presente em Bleach e replicada aqui com identidade própria.
Naruto: o trio de alunos e o professor que segura as pontas
Masashi Kishimoto popularizou o formato de três aprendizes conduzidos por um instrutor veterano, e Jujutsu Kaisen abraça esse modelo. Yuji, Megumi Fushiguro e Nobara Kugisaki refletem, respectivamente, traços de Naruto Uzumaki, Sasuke Uchiha e Sakura Haruno, mas a roteirização de Hiroshi Seko evita reedições diretas. Fushiguro, por exemplo, traz a introspecção de Sasuke sem o traço vingativo, enquanto Nobara substitui as inseguranças de Sakura por autoconfiança ácida.
Koki Uchiyama (voz de Megumi) trabalha silêncios e registros graves para sugerir contenção emocional, ecoando o que Noriaki Sugiyama fez com Sasuke. As falas curtas, muitas vezes entrecortadas por suspiros, sublinham um personagem que pesa cada palavra. Já Asami Seto injeta em Nobara uma ironia quase teatral, atualizando o papel feminino dentro do grupo. A direção de Sunghoo Park explora o trio em enquadramentos que potencializam o contraste de personalidades, evitando que a série se perca em comparações fáceis com Naruto.
Hunter x Hunter e Evangelion: sistemas de poder e carga filosófica
Togashi elevou o conceito de sistemas de luta com Nen, e Gege Akutami bebeu dessa fonte ao criar a energia amaldiçoada. A regra do “acordo vinculante” em Jujutsu Kaisen – limitar habilidades para torná-las mais letais – lembra a lógica de restrições em Hunter x Hunter. A adaptação de Hiroshi Seko torna esses diálogos técnicos acessíveis, alternando termos complexos com exemplos visuais que não atrasam o ritmo.
Imagem: Divulgação
Já Neon Genesis Evangelion empresta o peso simbólico. Akutami recorre a iconografia budista e cristã para reforçar o confronto entre sacralidade e degradação, enquanto o storyboard de Park posiciona personagens diante de estátuas, templos e círculos de selamento que remetem aos Anjos de Evangelion. No elenco, o destaque fica para Nobunaga Shimazaki, intérprete de Mahito, que adota um tom quase infantil ao filosofar sobre a fragilidade humana, lembrando as divagações frias dos antagonistas de Hideaki Anno.
My Hero Academia: o empurrão criativo que faltava
Embora mais recente, My Hero Academia serviu como catalisador. A história de Izuku Midoriya, aluno comum que ganha um poder ao ingerir o DNA de seu ídolo, ecoa no primeiro episódio de Jujutsu Kaisen, quando Yuji engole o dedo de Sukuna. A semelhança fica restrita ao ponto de partida; de lá em diante, Akutami conduz uma espiral de horror bem distante do otimismo heroico de Kohei Horikoshi.
Na prática, o paralelo se reflete no desenho de arco escolar. Tal como a U.A., o Colégio Jujutsu possui hierarquias rígidas, torneios internos e uma burocracia que, muitas vezes, atrapalha mais do que ajuda. A trilha de Hiroaki Tsutsumi, Yoshimasa Terui e Arisa Okehazama reforça esse dinamismo, alternando temas orquestrais grandiosos com batidas eletrônicas que remetem às lutas de My Hero Academia, mas com timbres mais sombrios.
Vale a pena assistir Jujutsu Kaisen?
Com direção inventiva, elenco de voz afinado e a destreza de incorporar influências sem perder originalidade, Jujutsu Kaisen confirma por que se tornou queridinho do público. Para quem acompanha o Salada de Cinema em busca de boas recomendações, a série entrega narrativa ágil, visuais marcantes e atuações que potencializam cada cena de tensão.



