Elizabeth Báthory existiu de verdade: foi uma nobre húngara que viveu entre 1560 e 1614 e acabou no centro de uma das acusações mais violentas da história europeia. Em Monstro: A História de Lizzie Borden, ela ganha vida através de Vicky Krieps, a mesma atriz que interpreta Bridget “Maggie” Sullivan na trama principal.
O detalhe mais famoso associado ao nome de Báthory, porém, é justamente o que tem base histórica mais frágil. A série da Netflix mistura fatos documentados com uma lenda que só surgiu por escrito mais de cem anos depois da morte da condessa.
Aviso de spoiler: os itens abaixo mencionam como a trama de Monstro conecta Elizabeth Báthory à protagonista.
Resumo rápido
- Elizabeth Báthory foi uma aristocrata húngara real, acusada de torturar e matar jovens mulheres em suas propriedades.
- O número de 650 vítimas, muito repetido, nunca foi comprovado por documentos da época.
- A história do banho de sangue só apareceu por escrito em 1729, cerca de 115 anos após a morte da condessa.
- Vicky Krieps interpreta tanto Maggie Sullivan quanto Báthory em Monstro, por sugestão de Ryan Murphy durante a produção.
- Não há evidência histórica de que Lizzie Borden conhecesse a história de Báthory; a ligação é invenção da série.
Por que Vicky Krieps interpreta duas personagens em Monstro
Segundo material oficial da Netflix Tudum, as cenas de Elizabeth Báthory foram gravadas na Itália e ficaram para o fim do cronograma de filmagem. Até aquele ponto, a produção ainda não tinha decidido quem faria a personagem.
O cocriador Ian Brennan contou que foi Ryan Murphy quem sugeriu aproveitar Vicky Krieps, já escalada como Maggie, também para viver a condessa. A decisão aconteceu tarde na produção, não fez parte do plano original da série.
Na tela, colocar a mesma atriz nos dois papéis reforça a ponte que Monstro constrói entre as duas mulheres: é Maggie quem apresenta Báthory a Lizzie, e Krieps passa a encarnar literalmente a figura que está sendo narrada.
A lenda do banho de sangue não aparece nos registros da época
Não existe relato contemporâneo conhecido afirmando que Elizabeth Báthory se banhava em sangue de mulheres para preservar a juventude. Essa é a maior distância entre a condessa histórica e a personagem que a cultura popular consagrou.
A história apareceu pela primeira vez por escrito em uma obra do jesuíta László Turóczi, publicada em 1729, quase 115 anos depois da morte de Báthory. Até então, as acusações contra ela tratavam de violência física e tortura, sem menção ao ritual sangrento.
Foi essa versão mais tardia e macabra que transformou Báthory em figura quase sobrenatural, associada a vampiros e apelidada de “Condessa Drácula” com o passar dos séculos. É exatamente essa camada lendária que Monstro escolhe evocar.
O número de 650 vítimas nunca foi comprovado
A cifra de 650 mortes, repetida à exaustão em livros e filmes, vem do relato de uma testemunha que afirmou ter ouvido que um funcionário de Báthory teria visto um registro particular com centenas de nomes.
Esse suposto livro nunca foi apresentado como prova, e o homem apontado como tendo visto a lista não confirmou diretamente a história. Outros depoimentos da mesma investigação citam números bem menores.
O Arquivo Nacional da Hungria observa que, conforme a apuração avançava e os rumores se espalhavam, o número atribuído à condessa também crescia. Não há base documental segura para tratar “650 vítimas” como contagem histórica estabelecida.
O que os documentos realmente mostram sobre a prisão de Báthory
Báthory foi detida em 1610 e ficou confinada no Castelo de Čachtice, na atual Eslováquia, até morrer em 1614. Diferente de pessoas do seu círculo, ela não passou por um julgamento público.
Empregados ligados a ela foram interrogados, julgados e, em alguns casos, executados com base em depoimentos reunidos durante a investigação. Boa parte desse material, porém, é indireto ou contraditório, o que dificulta reconstruir os fatos com precisão mais de quatro séculos depois.
A historiadora Rachael Bledsaw, que estudou o caso dentro do contexto jurídico e político da Hungria da época, questionou teorias modernas que tratam toda a acusação como uma conspiração política. A dúvida histórica não permite tratar Báthory como inocente, mas também não sustenta os números e rituais que a lenda popularizou.

A ligação entre Elizabeth Báthory e Lizzie Borden é ficção de Monstro
Não existe evidência histórica de que Lizzie Borden tivesse qualquer contato com a história de Elizabeth Báthory ou que a lenda da condessa tenha influenciado os acontecimentos de 1892. Essa conexão pertence exclusivamente ao roteiro escrito por Ryan Murphy e Ian Brennan.
Na trama, é Maggie quem apresenta a Lizzie um livro sobre Báthory, transformando a lenda em uma espécie de antecedente para a trajetória construída pela série. A mesma estratégia narrativa aparece com Aileen Wuornos, criando uma corrente entre as três mulheres que nunca existiu fora da ficção.
O padrão se repete em toda a temporada da Netflix: partir de pessoas e casos reais e preencher as lacunas históricas com interpretação própria. No caso de Elizabeth Báthory, a lacuna preenchida é justamente o detalhe mais famoso e menos comprovado de toda a sua história.


