Os Assassinatos de Idaho: Pesadelo Universitário chega em terceiro lugar na corrida dos streamers para contar o assassinato dos quatro estudantes de Idaho, mas é a versão que eu recomendaria sem hesitar. A série de três partes, lançada pela Netflix em 29 de julho de 2026, faz o que as concorrentes não tiveram paciência de fazer: esperar.
Dirigida por Skye Borgman e com Joe Berlinger, indicado ao Oscar, como produtor executivo, a produção reconstrói o assassinato de Madison Mogen, Kaylee Goncalves, Ethan Chapin e Xana Kernodle, esfaqueados em 13 de novembro de 2022 dentro de uma casa fora do campus da Universidade de Idaho, em Moscow. O diferencial está na escolha de aguardar a sentença de Bryan Kohberger antes de ir ao ar, algo que nem a Netflix costuma fazer com true crime.
A vantagem de ter esperado a sentença de Kohberger
Enquanto o Prime Video lançou One Night in Idaho de forma apressada e já precisou renovar para uma segunda temporada só para fechar pontas soltas, e o Peacock recorreu a uma jornalista de TikTok como fonte confiável em The Idaho Student Murders, a Netflix optou por deixar o processo terminar. Essa espera resultou em acesso direto a familiares que preferiram participar apenas do projeto de Borgman, além de depoimentos e imagens de bodycam que dão à série um peso documental que as outras simplesmente não tinham.
O resultado é um trabalho que trata o caso com mais cuidado do que pressa. A reconstrução da linha do tempo, desde a chamada ao 911 feita pelas colegas de casa Dylan Mortensen e Bethany Funke até a identificação de Kohberger por DNA, é detalhada sem parecer sensacionalista. Fica claro por que cerca de vinte agentes do FBI trabalharam no caso: o suspeito praticamente não deixava rastro digital, e isso atrasou a investigação por meses.
O foco recai sobre as vítimas, não sobre o assassino
O maior acerto de Os Assassinatos de Idaho é onde ele coloca a câmera. Em vez de transformar Kohberger em protagonista, a série dedica boa parte do tempo a mostrar quem eram Madison, Kaylee, Ethan e Xana antes da tragédia, com trechos de vídeos e relatos das famílias que humanizam quatro pessoas que, em outras coberturas, correm o risco de virar só nomes em uma manchete.
Essa escolha lembra a de outro documentário recente sobre crime real: The TikTok Killer também tentou equilibrar o suspense do caso com respeito pelas vítimas, ainda que com resultado mais irregular. Aqui, cada depoimento familiar carrega peso emocional real, e o momento em que os parentes encaram o assassino durante a sentença funciona como o ponto mais duro e necessário da série.
Onde a série tropeça
Nem tudo é perfeito. Em alguns trechos, dá para sentir que os produtores esticaram entrevistas para preencher os cerca de 44 minutos de cada episódio, como quando um dos entrevistados se demora explicando o significado da palavra “incel” de um jeito que soa mais didático do que necessário. É um problema pontual, mas destoa do tom mais seco e factual do restante da produção.
Ainda assim, há um momento que resume bem o que a série faz de melhor: o relato de um policial sobre o transtorno de estresse pós-traumático que carregou depois do caso, e a decisão dele de buscar terapia. É um dos poucos instantes em que o documentário sai do procedimento policial para mostrar o custo humano de investigar uma tragédia dessa magnitude, mesmo para quem não perdeu ninguém diretamente.
Vale a pena assistir Os Assassinatos de Idaho: Pesadelo Universitário?
Vale, principalmente para quem quer entender o caso sem precisar acompanhar três produções diferentes e picotadas. A série entrega uma narrativa completa, com fontes de primeira mão e um respeito pelas vítimas que faltou às versões anteriores, mesmo sem inovar na forma como monta um documentário de crime real.
Quem já acompanhou o caso Idaho pela imprensa não vai encontrar reviravoltas, mas vai sair da série com uma compreensão mais humana de quem foram Madison, Kaylee, Ethan e Xana. Para quem, como eu, ouviu falar do crime pela primeira vez através da produção, esse acabou sendo o ponto de entrada mais respeitoso possível para uma história tão dolorosa quanto essa.
⭐ Nota: 6.5/10
Fonte principal: Netflix. Informações complementares: The Hollywood Reporter



