Nicole Kidman voltou a pisar nos sets de TV e, de novo, transformou o simples ato de aparecer em tela num pequeno acontecimento. Em Scarpetta, adaptação dos romances de Patricia Cornwell que chega ao Prime Video em 11 de março, a atriz lidera um elenco carregado de estrelas e coloca sua presença magnética para tentar dar ordem a um roteiro que vive flertando com o exagero.
Com direção alternada de David Gordon Green e Charlotte Brändström, a produção aposta em crimes aparentemente convencionais, mas logo abre espaço para estações espaciais despencando, espiões russos e até cônjuges sintéticos movidos a inteligência artificial. É um prato cheio para quem gosta de misturar procedurais clássicos com teorias conspiratórias dignas de tabloide.
Nicole Kidman domina o caos
Kidman assume a versão presente da médica legista Kay Scarpetta, recém-nomeada Chefe de Medicina Legal da Comunidade da Virgínia. Desde a primeira cena, a atriz entrega o mesmo magnetismo visto em Big Little Lies: fala pouco, observa muito e parece medir cada respiração enquanto corpos vão se acumulando na mesa de autópsia.
Quando pistas de um caso antigo ressurgem, a intérprete conduz o espectador por corredores burocráticos dominados por homens que subestimam sua autoridade. A performance funciona como um contrapeso natural para a narrativa, que em diversos momentos ameaça descambar para a paródia. Se a série ainda faz sentido no meio de tantas ideias, grande parte do mérito é dela.
Duas linhas do tempo, uma mesma tensão
O roteiro de Liz Sarnoff coloca a investigação em curso lado a lado com flashbacks ambientados décadas antes. Nessa fase, Rosy McEwen vive a jovem Kay, e o contraste entre as duas atrizes cria um diálogo interessante: de um lado, a dureza de quem já acumulou feridas; do outro, a ambição de quem ainda acredita poder mudar o sistema.
McEwen, revelação de Blue Jean, brilha ao equilibrar frieza profissional e doçura doméstica, principalmente nas cenas com a sobrinha Lucy. O material exige que ela enfrente misoginia institucional no trabalho enquanto se envolve romanticamente com o profiler Benton – papel dividido por Simon Baker e Hunter Parrish, dependendo da linha temporal. O recurso de ida e volta nem sempre é polido, mas mantém a tensão acesa e ajuda a justificar a montanha-russa de tons que define a temporada.
Elenco de peso amplifica os extremos
Além da dupla principal, Scarpetta escala Jamie Lee Curtis como Dorothy, irmã da protagonista. A atriz oscila entre o humor ácido de The Bear e a vibração espalhafatosa de personagens mais cômicos, criando uma figura que implora por atenção enquanto guarda rancores antigos.
O núcleo masculino ganha força com Bobby e Jake Cannavale dividindo o detetive Pete Marino, fiel escudeiro de Kay e marido de Dorothy. Já Ariana DeBose interpreta Lucy, filha de Dorothy, completando a família disfuncional que decide compartilhar o mesmo casarão na Virgínia de Benton. Entre segredos, desaforos e ligações suspeitas, o clã fornece tanto ou mais drama do que a própria investigação criminal.
Imagem: Divulgação
Esse clima de novela policial, aliás, aproxima a série de outras produções do Prime Video que abraçam o exagero, como Young Sherlock. No caso de Scarpetta, porém, o risco de colapso narrativo é permanente, e cada ator precisa achar um ponto de equilíbrio para não virar caricatura completa.
Direção e roteiro entre o pé no chão e o delírio
Sarnoff, que assume também a função de showrunner, adapta apenas parte dos 29 livros escritos por Cornwell e já demonstra ambição de sobra para sustentar anos de história. O problema é a quantidade de temas empilhados em apenas oito episódios: misoginia no ambiente público, violência contra mulheres, impacto da IA, espionagem internacional, crises familiares e até órgãos sintéticos contrabandeados.
A direção de Green e Brändström tenta dar coerência visual ao desfile de ideias. Green aposta em planos mais granulados nas cenas do passado, sugerindo uma memória em constante erosão, enquanto Brändström prefere a frieza clínica do presente, cheia de superfícies metálicas e laboratórios banhados em luz fluorescente. Ainda assim, nem sempre a estética consegue mascarar a sobrecarga de informações que o texto despeja a cada capítulo.
Vale a pena assistir Scarpetta?
Com apenas oito episódios e nota 6/10 registrada no material de divulgação, Scarpetta fica num meio-termo curioso: nunca chega ao refinamento de Big Little Lies, mas também não afunda completamente nas próprias ambições. Seu trunfo está no elenco afiado, liderado por Nicole Kidman, e na coragem de misturar thriller forense com conspiração sci-fi sem pedir desculpas.
Para quem acompanha o Salada de Cinema em busca de novidades instigantes, a série oferece um passeio divertido – ainda que irregular – pelo universo da medicina legal pop. Se o espectador estiver disposto a abraçar robores viúvos, estações espaciais caindo do céu e rusgas familiares num mesmo pacote, a maratona tem tudo para render boas conversas no café do trabalho.









