Finding Her Edge chegou à Netflix com a promessa de misturar drama adolescente, competição esportiva e muito romance no gelo. A série, inspirada no livro de Jennifer Iacopelli, acompanha Adriana Russo em sua busca por um novo parceiro de dança, enquanto a família lida com dívidas, luto e rivalidade interna.
Ao longo de oito episódios, o enredo patina entre cenas eletrizantes de patinação artística e um triângulo amoroso que nunca atinge a temperatura esperada. Ainda assim, o carisma do elenco juvenil, aliado a uma direção que prefere o realismo ao glamour, garante fôlego suficiente para quem curte dramas esportivos.
Elenco juvenil segura a emoção no gelo
Madelyn Keys assume o centro da pista como Adriana Russo. A atriz alterna vulnerabilidade e determinação com naturalidade, convencendo tanto nos momentos de fragilidade familiar quanto nas coreografias coreografias de alto risco. Sua química com Cale Ambrozic, o rebelde Brayden, mantém a narrativa em movimento, especialmente quando estão longe das luzes da arena.
Ambrozic traz camadas ao “bad boy” que, à primeira vista, poderia soar genérico. Entre olhares desafiadores e treinos exaustivos, o ator explora nuances de um personagem que aprende a confiar em parceria. Já Olly Atkins, como Freddie, aparece menos do que o triângulo exigiria; quando enfim ganha espaço, falta bagagem dramática para justificar o impacto sobre Adriana.
Entre os coadjuvantes, Alexandra Beaton rouba a cena como Elise, irmã mais velha que vive o medo de voltar ao gelo após uma queda traumática. A atriz entrega a melhor transição de arco, indo da autossabotagem ao reencontro com o próprio talento. Alice Malakhov, por sua vez, injeta energia como a caçula Maria, responsável por momentos mais leves e por diálogos que questionam o peso da tradição familiar.
O entrosamento entre Freddie e Brayden se destaca positivamente. Em vez de recorrer a rivalidades rasas, a série aposta em uma camaradagem inesperada, lembrando como personagens antagonistas podem evoluir quando têm espaço para trocar.
Direção aposta em realismo e evita glamour excessivo
A condução dos episódios privilegia a fisicalidade dos atores. As cenas de treino são filmadas com câmera próxima, ressaltando respiração ofegante, deslizes e a tensão dos músculos, algo que lembra o cuidado estético de produções como A Beleza, ainda que em contexto totalmente distinto.
Ao priorizar enquadramentos secos e iluminação fria nos ginásios, a direção afasta o espectador da fantasia colorida típica de filmes de patinação. O resultado é uma atmosfera crua que reforça a pressão de atletas jovens em busca de patrocínio e aprovação familiar. Fora do gelo, a fotografia adota tons quentes apenas em raros momentos de intimidade, sublinhando como o lar também pode ser um ringue.
Roteiro equilibra drama familiar e competição, mas tropeça na paixão
Escrito pela própria Jennifer Iacopelli ao lado de colaboradores, o roteiro acerta ao colocar o luto pelo falecimento da matriarca como fio condutor. As três irmãs representam estágios diferentes de processamento da perda, permitindo diálogos que escapam do clichê motivacional.

Imagem: Netflix
Entretanto, quando a trama exige que o romance avance, a narrativa freia. O triângulo amoroso não oferece informações suficientes sobre a história de Adriana e Freddie para o público torcer por uma reconciliação. Já a conexão entre Adriana e Brayden, evidenciada nos treinos, cresce de forma orgânica, tornando a virada romântica final previsível. É nesse ponto que Finding Her Edge perde parte do seu brilho, já que o conflito central não convence.
Mesmo assim, alguns detalhes funcionam: o acordo de “namoro de fachada” para atrair patrocinadores explora bem a atual dependência de atletas de visibilidade em redes sociais, assunto também discutido em séries como Steal. Além disso, os diálogos sobre saúde mental e expectativas parentais, embora pontuais, conferem densidade ao texto.
Aspectos técnicos reforçam a atmosfera competitiva
A edição intercala sequências de patinação com closes de reações familiares, criando um vaivém emocional eficiente. A trilha sonora opta por faixas pop de batida marcada, que ajudam a manter o ritmo dos episódios e a sensação de progressão nos treinos.
O figurino evita brilhos excessivos fora das competições, privilegiando moletons, leggings e jaquetas acolchoadas. Esse contraste reforça a diferença entre o show para juízes e o cotidiano de esforço. Já o design de produção transforma o “complexo Russo” em personagem: corredores estreitos exibem troféus antigos, lembrando constantemente o peso do legado olímpico.
Por fim, os efeitos de som durante as quedas e saltos entregam impacto sem recorrer a dramatizações exageradas. O espectador sente o gelo rachando levemente sob as lâminas, detalhe que amplia a imersão.
Finding Her Edge vale a maratona?
Para quem busca um drama esportivo com enfoque em dinâmica familiar e atuações convincentes, Finding Her Edge cumpre bem o papel. O romance fica aquém do esperado, mas a combinação de performances sólidas, direção realista e discussões sobre pressão no esporte juvenil garante interesse. No catálogo da Netflix, a produção encontra espaço ao lado de histórias que equilibram competição e coração, entregando um entretenimento que, embora imperfeito, pode agradar a quem curte narrativas geladas com calor humano.



