Crescer é, fundamentalmente, a arte de perder. Perdemos a inocência, perdemos a segurança do ninho e, eventualmente, perdemos aqueles que nos definiram. Como Treinar o Seu Dragão 3, que desembarca amanhã (14/01) no catálogo da HBO Max, não é apenas o encerramento de uma trilogia de sucesso.
É um tratado visualmente único sobre a maturidade. Ao assistir ao desfecho da saga de Soluço e Banguela, fui confrontado com uma inversão dolorosa, mas necessária: se os primeiros filmes nos ensinaram a importância da união, este terceiro capítulo nos ensina a nobreza da separação.
A história de Como Treinar o Seu Dragão 3
A trama nos encontra em uma Berk superpovoada, vítima do próprio sucesso da utopia criada por Soluço. O vilarejo se tornou um santuário caótico onde humanos e dragões convivem, mas essa concentração atrai a atenção errada. Surge Grimmel, um vilão que opera como a antítese perfeita do nosso herói.
Se Soluço é definido por ter salvado um Fúria da Noite, Grimmel é definido por tê-los caçado até a quase extinção. O antagonista usa uma isca irresistível: uma Fúria da Luz, uma fêmea que desperta em Banguela instintos selvagens que estavam adormecidos pela domesticação.
Acompanhamos o grupo em busca do mítico “Mundo Escondido”, um refúgio ancestral, enquanto Soluço precisa lidar com seu maior medo: quem é ele sem o seu dragão?
O vilão como espelho do passado
Eu achei fascinante a construção psicológica de Grimmel. Ele não possui a força bruta de Drago (o vilão do segundo filme), mas possui uma convicção ideológica assustadora. Ele representa o “caminho não seguido” por Soluço. Grimmel é o que o protagonista teria se tornado se tivesse matado Banguela no primeiro filme, em vez de libertá-lo.
Esse confronto força Soluço a questionar sua própria liderança. Ele se sente uma fraude, acreditando que seu valor reside apenas na posse do dragão mais poderoso do mundo. O filme desconstrói a “síndrome do impostor” do herói, obrigando-o a encontrar força em sua humanidade, e não na magia das feras.
A introdução da Fúria da Luz não serve apenas para criar um par romântico fofo para vender brinquedos. Ela funciona como um espelho da natureza indomável. Diferente de Banguela, ela não confia nos humanos. Ela não quer ser “treinada”. Eu notei como a animação comunica isso sem diálogos: a postura dela é arisca, seus movimentos são fluidos e letais.
Ela representa um mundo ao qual Banguela pertence por direito de nascença, um mundo onde Soluço não pode entrar. O romance entre os dragões é o catalisador que faz Soluço perceber que o amor verdadeiro não é posse, mas a concessão de liberdade.
A inversão do ideal de convivência
O ponto mais corajoso do roteiro de Dean DeBlois é contradizer a premissa da franquia. Passamos dois filmes lutando para que humanos e dragões vivessem juntos. Agora, o filme argumenta que, para a segurança dos dragões, eles precisam viver separados.
É uma mensagem amarga sobre a natureza humana. O filme reconhece que a ganância e a violência dos homens (representadas por Grimmel e pelos exércitos de caçadores) sempre colocarão a magia em risco. O “Mundo Escondido” é a metáfora perfeita para a preservação: um lugar intocado, bioluminescente e vasto, onde a humanidade não é bem-vinda.

Vale a pena assistir?
Eu recomendo enfaticamente que você assista a Como Treinar o Seu Dragão 3, não importa a sua idade. Se você acompanhou a jornada desde o início, prepare-se para um impacto emocional genuíno. A HBO Max traz a oportunidade de revisitar uma das trilogias mais consistentes da história da animação.
O valor desta conclusão reside na sua honestidade. Filmes “para família” raramente têm a coragem de abordar o fim de uma era com tanta dignidade. Não há soluções mágicas que mantenham o status quo; há apenas a aceitação de que a vida segue em frente, e que mudar dói.
Tecnicamente, a animação é um espetáculo. O trabalho de iluminação nas cenas do Mundo Escondido e a textura das escamas e da areia elevam o padrão da DreamWorks. Mas o que fica na memória não são os efeitos visuais, e sim o silêncio dos olhares finais.
A evolução de Soluço, de um menino desajeitado para um líder barbado e seguro, e a transformação de Banguela, de um animal de estimação para um Rei dos Dragões, encerram o ciclo com perfeição. É uma obra sobre soltar as amarras. Sobre entender que, às vezes, o maior ato de amor que podemos oferecer a alguém é deixá-lo ir para onde ele realmente pertence.









