Toda vez que alguém descreve um faroeste como “John Wick antes do John Wick”, uma cena específica de Bruce Willis costuma voltar à conversa. O problema é que muita gente confunde o título com a sitcom do Tim Allen e nunca chega a assistir ao filme de verdade. Last Man Standing, de 1996, não tem nenhuma relação com a série de televisão.
É um faroeste dirigido por Walter Hill, com Willis no papel de John Smith, um pistoleiro misterioso que chega a uma cidade do deserto dominada por duas gangues rivais durante a Lei Seca.
O filme é um remake declarado de Por um Punhado de Dólares, de Sergio Leone, e de Yojimbo, de Akira Kurosawa, e foi um fracasso de bilheteria: arrecadou cerca de 47 milhões de dólares contra um orçamento estimado em 67 milhões, segundo o Box Office Mojo.
A trama de Last Man Standing remete direto a Por um Punhado de Dólares
A base narrativa é praticamente idêntica à de Leone e Kurosawa: o herói finge lealdade aos dois lados do conflito, joga uma gangue contra a outra e, quando a manobra é descoberta, paga caro por isso, sendo capturado e espancado antes do acerto de contas final.
O que muda é o verniz. Hill troca o Velho Oeste clássico pelo cenário de gângsteres da Lei Seca e injeta uma coreografia de tiroteio com influência declarada de John Woo, o que explica por que o filme voltou a ser lembrado como uma espécie de ancestral distante de John Wick: corpo a corpo raro, muita bala e um herói de poucas palavras.
Um fracasso comercial que pesou na carreira do gênero
Com Westerns praticamente extintos em Hollywood desde os anos 1970, o desempenho fraco de Last Man Standing nas bilheterias reforçou a ideia de que o gênero não tinha mais espaço em produções de grande orçamento, mesmo com um astro do calibre de Willis no elenco.
Apesar do tropeço comercial, o filme reúne nomes de peso ao redor de Willis. Bruce Dern, conhecido por sua atuação indicada ao Oscar em Nebraska, interpreta o xerife corrupto da cidade, enquanto Christopher Walken, o mesmo ator premiado por O Franco Atirador, vive um dos chefes de gangue mais ameaçadores do filme.
O elenco ainda guarda uma curiosidade de bastidor: é um dos primeiros trabalhos de Leslie Mann no cinema, décadas antes de ela se firmar como uma das comediantes mais conhecidas de Hollywood.

Por que Last Man Standing é o faroeste mais raro da carreira de Bruce Willis
Willis construiu boa parte dos anos 1990 alternando ação comercial, como as sequências de Duro de Matar e O Último Escoteiro, com escolhas mais arriscadas, incluindo o papel coadjuvante em Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. Last Man Standing entra nessa segunda categoria, mas com um detalhe curioso: em toda a carreira, o ator só chegou perto do faroeste puro duas vezes.
A primeira foi a comédia de 1988 Sunset, um projeto que nem o próprio mercado levou a sério. A segunda foi justamente este filme de Hill, que aposta na estética clássica do gênero sem abrir mão do tom seco e violento que marcou boa parte da obra do diretor.
O resgate desse tipo de trabalho ganha um peso diferente hoje. Desde que a família revelou, em 2022, que Willis enfrentava afasia e, em 2023, o diagnóstico de demência frontotemporal, o ator está afastado dos sets. Isso faz de filmes como este um material raro para quem quer revisitar registros que ele nunca repetiu.
Quem se interessar pelo filme agora ganha também um caminho natural para conhecer melhor a fase de ação estilizada de Walter Hill, o mesmo diretor por trás de 48 Horas e Os Selvagens da Noite, e entender de onde vem sua fama por coreografias de tiro precisas e diálogos secos.



