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Cine Mulheres | A Forma da Água, do Ar, da Terra e do Coração feminino

por Camila de Lira comentários

Influenciada por trailers, críticas e comentários de amigos, fui assistir ao “A Forma da Água” (Guilhermo del Toro, 2017) com uma ideia pré-concebida de que encontraria ali uma versão sombria de “A Bela e a Fera”, uma fábula que, mais uma vez, tornaria o amor da protagonista pelo herói-que-não-é-humano mais importante do que a história da personagem em si.

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Eu já até tinha um tema para a coluna que iria escrever sobre o filme, vejam só: falaria sobre como a profusão de filmes em que a personagem feminina com características quase-perfeitas – além de sempre bonita e dentro do padrão – se apaixona por um herói com muitas falhas e o aceita.

Mas, com perdão do trocadilho, tudo foi por água abaixo nos primeiros 15 minutos, quando Elisa Esposito (Sally Hawkins) dança um pouco de sapateado, como Shirley Temple. Elisa é completamente adorável, mas não um tipo adorável como uma princesa indefesa de conto de fadas – que, pensando bem, nunca são tão indefesas assim – não. Elisa é sensível, observadora, fiel, honrada e independente.

Elisa é humana da melhor forma possível, aquela que consegue ver humanidade em tudo, desde na criatura-do-pântano-brasileiro – ou seria Monstro do Lago – até os personagens dos filmes que assiste com seu melhor amigo, Giles (Richard Jenkins). E o que torna Elisa tão humana, no filme, é a mesma característica que torna o “monstro” tão humano aos nossos olhos: a invisibilidade de ambos.

Ambientado nos Estados Unidos dos anos 60, o filme mostra de uma maneira honesta a maneira com que mulheres, gays e negros – personificado pela melhor amiga de Elisa, Zelda Fuller (Octavia Spencer) eram tratados: como seres invisíveis no curso da história. História esta que estaria na mão de homens “fortes” (e brancos) como Richard Strickland (Michael Shannon).

Perto de Richard, Elisa até pareceria fraca, e, em qualquer outro filme, ela precisaria de um grupo de homens para ajudá-la. Elisa, no entanto, só precisa de Giles, Zelda e do Dr. Hoffstetler ( Michael Stuhlbarg), ou seja, de pessoas que são tão “humanas” e invisíveis como ela. Ela, a faxineira do laboratório, a mulher muda que tem a vida completamente regrada. Mas é apenas ela que consegue controlar o homem-anfíbio, ela, na sua mudez,na sua emotividade, na sua sensibilidade. Não é o amor de Elisa que salva o homem-anfíbio, mas a sua humanidade. Não é o amor que a salva, mas a sua capacidade de olhar para o outro e enxergar nele um ser completo.

“Não podemos fazer nada, ele nem é humano”, diz um frustrado e irritado Giles. “Se não fizermos nada, nem a gente é”, diz ela, com sinais na mão. O que dá força a Elisa é a sua compaixão e não o seu amor pelo homem anfíbio. E isso é uma grande mudança de eixo quando tratamos de personagens femininas, que sempre são definidas pela relação que tem com o personagem masculino, principalmente quando este é o seu par romântico – como em a Bela e a Fera, onde Bela é a filha, é o par da Fera, ela nunca é só ela.

No lugar de ver uma mulher que reforçava a exigência da sociedade de que a mulher sempre seja emotiva, obediente, carinhosa e ligada a um homem, que existe nas entrelinhas das personagens femininas que abundam filmes – principalmente de ficção científica ou fantástica como esse, encontrei em Elisa uma força da resistência anti-masculinidade.

Pego emprestada a questão feita na crítica do El País: por que, em vários filmes deste século, as mulheres encontram o amor em seres de outro planeta, ou, pelo menos em seres não humanos? Acredito que a resposta diz muito mais sobre como a masculinidade – e os modelos de homem que gostamos de perpetuar – do que sobre as mulheres.

No filme, Elisa se apaixona pelo homem anfíbio porque é ele o único capaz de oferecer algum tipo de afeto a uma mulher “diferente”. E o que isso diz sobre a maneira como construímos os homens? O que isso diz sobre a maneira que construímos a nossa sociedade, sempre aberta a colocar o diferente de lado em troca de uma padronização irrisória?

Elisa vê, percebe, dialoga, ensina, protege, compartilha, dança, transa e ama, ama, ama, ama. E, no mundo de “A Forma da Água”, ela é a heroína. Ela é a forte. No nosso mundo também. Embora o consenso diga o contrário.

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Camila de Lira
Camila de Lira

Jornalista formada pela USP, é cinéfila desde os 4 anos de idade, quando assistia a filmes da Disney, da Turma da Mônica e de Chaplin.Sonha em acordar num musical ou em um filme de Fellini ou num clipe de David Fincher.

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