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LGBTudo | Drags ao seu dispor

por Will Poliveri comentários
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Quando o reality show RuPaul’s Drag Race estreou em 2009, duvido que até mesmo seu idealizador RuPaul Charles tivesse em mente que o programa se tornaria um fenômeno mundial. Apelidado pelos meus amigos como a Copa do Mundo dos Gays (que, aliás, é muito melhor do que a Copa do Mundo original, pois acontece duas vezes por ano), o programa conseguiu unir fãs obcecados ao redor do mundo, principalmente depois que as temporadas entraram no catálogo da Netflix.

Mais do que uma máquina de dinheiro, é legal sempre lembrar como a Drag Race foi importante para a representatividade da comunidade LGBTQ. Mesmo que a competição seja viciante, um pedaço muito significativo do programa sempre foi mostrar as pessoas por trás da montação. Afinal, mesmo sendo personagens cômicos no palco, cada participante traz dramas e histórias universais sobre o dia a dia de ser gay. Homofobia, a dificuldade da saída do armário, a aceitação – ou não – dos pais, a sorologia, o terapia de adequação de gênero: tudo que você imaginar já foi assunto em alguma das temporadas.

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Além disso, o reality levou a arte drag do mundo underground para os holofotes no mainstream. E não só porque fez uma drag ganhar o Emmy de Melhor Apresentador de Reality (RuPaul levou o troféu em 2016 e 2017). A partir do programa, as queens participantes estabeleceram carreira no mundo do entretenimento, viajam o mundo em turnês, gravam músicas, participam de clipes de grandes artistas, alimentam fã-clubes passionais e protagonizam até produções no cinema.

E é justamente aqui que eu queria chegar! Claro que representatividade é importante, mas é até esperado que nem toda empreitada das drags seja artisticamente memorável. Principalmente na sétima arte. Em geral, são filmes feitos de forma quase independente e que sofrem com poucos recursos técnicos e roteiros que não foram lapidados o suficiente. Logo, o resultado deixa bastante a desejar.

Como timing é uma poderosa ferramenta de marketing, com certeza a nova temporada da edição All Stars vai fazer os dois filmes abaixo serem indicados a rodo pela Netflix. Então fique de olho e escolha por conta própria!

CHERRY POP

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A ideia por trás do filme até parece boa: um cara hétero que sonha em ser cantor desembarca no bar Cherry Pop atrás de uma chance para se apresentar ao vivo. Mas como o bar só tem shows para drag, ele vai precisar disputar espaço com as outras queens e inclusive se montar para ter seus 15 minutos de fama. Pena que a realização deste mote seja tão frustrante…

Obviamente, o principal chamariz do filme é a popularidade das drags Bob The Drag Queen, Detox e Latrice Royale. Porém, são 1h30 de filme intermináveis! A culpa é do fiapo de história, das piadas totalmente sem graça e do ritmo quase fúnebre – sério, o filme leva mais de meia hora só para apresentar todos os personagens.

Cherry Pop3

Fica muito claro que o principal defeito do longa é engessar queens com talento para o improviso em um roteiro rígido e sem criatividade. E isso fica explícito nos 5 minutos de erros de gravação durante os créditos finais, que são muito mais engraçados do que tudo que você viu até então. Ou quase isso, já que também fica claro que a edição não conhece o timing de comédia, cortando os erros assim que eles ocorrem, não dando o contexto em que as gafes acontecem ou alongando situações que não mereciam tanto tempo de tela. Sério, sashay away!

HURRICANE BIANCA

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Só de o filme ser protagonizado por Bianca Del Rio já era motivo para merecer o play. Drag praticamente unânime entre os fãs, a queen conquistou um legado merecido graças a seu humor cortante e implacável. Em sua estreia no cinema, optou por uma história clássica: a do forasteiro humilhado que se disfarça para conseguir vingança.

Roy Haylock – o homem por trás da drag – vive o professor de química Richard, que vai parar numa escola no interior do Texas e dá de cara com pessoas homofóbicas, xenofóbicas (ele sofre preconceito por ser latino) e extremamente conservadoras (a diretora pedagógica do colégio quer que ele ensine o Criacionismo). Depois de ser demitido por ser gay (afinal, o Texas tem uma lei que permite que você demita alguém por sua orientação sexual), Richard retorna à escola montado como Bianca Del Rio, ocupa a vaga de professor e se vinga de todos que lhe fizeram mal. Quase uma mistura de O Conde de Monte Cristo com Uma Babá Quase Perfeita.

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Analisando melhor, perto do desastre de Cherry Pop, Hurricane Bianca é quase merecedor de um Oscar. Mesmo que o roteiro acabe sendo leve demais perto da comédia de insulto que caracteriza as piadas de Bianca Del Rio, é inegável que ela tem o carisma necessário para segurar o espectador na frente da tela, seja como homem ou montada de drag. O que prova que Roy/Bianca é um bom ator acima de tudo.

Merecem destaque as cenas em que Bianca interage com as outras drags do elenco. Embora Alyssa Edwards apareça pouco e o próprio RuPaul só surja desmontado como o homem do tempo da TV, Willam e Shangela roubam a cena mesmo sem personificar suas drags na maior parte do filme. Apesar do roteiro esquemático, previsível e povoado por personagens estereotipados, Hurricane Bianca consegue deixar um sorriso amarelo no rosto – e, perto de Cherry Pop, isso é um elogio imenso!

É aquele típico filme bobinho que a gente vê num dia de chuva e não se lembra dele no dia seguinte. Pode ser uma boa companhia dependendo da sua expectativa.

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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