Salada de Cinema

Notícias, entrevistas, perfis e muito mais de tudo que acontece no mundo do cinema.

Salada de Cinema
Colunas

Multitela | A quarta era de ouro da TV é feminina e acontece fora da telinha e da Netflix

por Vito Antiquera comentários

180124_multitela

Cá estamos, coleguinhas, no começo de 2018. As premiações já começaram, e uma coisa já ficou definida: O Conto da Aia e A Maravilhosa Sra. Maisel, levando as premiações principais no Globo de Ouro e nos sindicatos e associações de críticos, já são as duas séries mais premiadas da temporada 2017/2018. À exceção do SAG, que ocorreu esse domingo e premiou a até merecedora VEEP e a conservadora e “corretinha” This is Us, todas as outras premiações dos círculos de televisão, críticos e relacionados premiaram O Conto da Aia como melhor drama e A Maravilhosa Sra Maisel como melhor comédia – além de coroar também suas protagonistas, a sensacional Elisabeth Moss e a surpreendente Rachel Bossman, com seus respectivos prêmios de atuação.

giphy

O que essas séries têm em comum? São “lideradas” por mulheres, com histórias fortes envolvendo distopia ou reconstituição histórica, nas quais suas respectivas protagonistas enfrentam uma realidade em que têm que se provar para sobreviver, seja figurativa ou literalmente. Moss e outras mulheres férteis são tratadas como ventres de produção em massa em Aia, que demonstra que em tempos de radicalismos estamos sempre a um passo de qualquer tipo de exagero, e que as mulheres são sempre as primeiras a sofrer. Na charmosa e quase “WoodyAllenesca” Nova Iorque dos anos 1950 de Sra Maisel, a adorável Midge composta por Bossman tem que lidar com uma separação e busca fazer sucesso fazendo as pessoas rirem em um mundo esfumaçado por piadas machistas e sem liberdade para as mulheres.

giphy (1)

Há ainda mais um ponto essencial em comum: ambas são MultiTela e estão em suas respectivas primeiras temporadas, se encaminhando para a segunda, em ambientes de streaming total ou quase relativamente novos como a Hulu e a Amazon. Só existem, essencialmente, pela coragem e liberdade artística desses meios de produção de conteúdo que bancaram ideias que foram previamente negadas por canais de televisão aberta e paga nos Estados Unidos – e, quem sabe, até por um gigante bem conhecido do streaming.

Olhando para esse cenário, é sintomático – e bem irônico, por assim dizer – que mesmo novatos esses produtores de conteúdo em streaming já tenham ultrapassado em reconhecimento de premiações a já consolidada e pioneira Netflix. Nada muito difícil de entender, se observarmos que a própria Netflix tem ramificado bastante sua gama de “produções originais”, gerando uma quantidade quase impossível de acompanhar desses produtos que variam não somente em qualidade mas também em temáticas, sempre resultando majoritariamente em programas de stand-up ou séries bem genéricas de suspense/terror/ação.

Mas o que isso tem a ver com o sucesso de O Conto da Aia e A Maravilhosa Sra Maisel? Absolutamente tudo. Enquanto a Netflix até arranhava possibilidades de prêmios importantes com produções por-vezes-ótimas (House of Cards, Orange Is The New Black, etc.), e até atingiu grandes méritos com a sempre-ótima The Crown, a Amazon começou sua jornada já focando totalmente em projetos pequenos que, acima de tudo, davam voz às minorias e jogavam luz sobre determinados assuntos e protagonismos que quase nunca tiveram espaço. Por mais The Crown seja incrível e tenha méritos inigualáveis, é um assunto já contado e recontado, enquanto Aia e Sra. Maisel são assuntos frescos.

Quem sabe, então, por Hulu e Amazon apostarem desde o começo no novo e inusitado, talvez tenham começaram um movimento que, impulsionado/direcionado até pelos escândalos de assedio e condições de trabalho da indústria, pode se estabilizar e representar uma possível quarta era de ouro da “televisão” americana. Nada mais sintomático que não seja uma era de brilhantismo centrada em Mad Man´s e Breaking Bad´s, com seus antagonistas masculinos, e sim um momento de contar histórias brilhantes de mulheres protagonistas corajosas, humanas e perseverantes, na frente e atrás das câmeras. Estrelas como Reese Witherspoon e Nicole Kidman originaram e já colhem frutos desse movimento com seu superestimado e HBO-zístico Big Little Lies já em uma provável era de ouro que dá visibilidade a todas as histórias e conta seus respectivos absurdos, e que finalmente pode ser vista de qualquer lugar – até, por um acaso, na frente de uma televisão. Que essa revolução seja feminina, e que possa ser baixada e vista em qualquer tela!

giphy (2)

Studio na Colab55
Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

Veja todos os posts de Vito Antiquera
Comentários
Follow my blog with Bloglovin