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Cine Sinistro | Corra! para o cinema

por Guilherme Barreto comentários

Quando os indicados à atual temporada de prêmios do cinema americano começaram a ser divulgados, no fim do ano passado, fiquei surpreso com a presença de Corra! (Get Out) perdido no meio dos dramas padrõezinhos de Hollywood. Não que ele não merecesse estar lá (vou elogiá-lo bastante mais para baixo – aguenta aí); é que a própria história do cinema mostra que o gênero terror sempre foi relegado a um nicho bem específico de público, crítica e premiações.

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Ao pegar como base o Oscar, que é o mais antigo exemplo de reconhecimento cinematográfico no mundo, somente duas produções de terror conseguiram ser indicadas à categoria máxima da Academia: O Exorcista, de 1973, e O Silêncio dos Inocentes, de 1991, sendo esse último o único a levar a estatueta de Melhor Filme para casa. Além deles, resistem, solitárias, algumas obras indicadas a prêmios técnicos, como O Médico e o Monstro (1931), O Retrato de Dorian Gray (1945), O Bebê de Rosemary (1968), Tubarão (1975), A Profecia (1976), Alien – O Oitavo Passageiro (1979), Um Lobisomem Americano em Londres (1981), A Mosca (1986), Drácula de Bram Stoker (1992), Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007) e Cisne Negro (2010).

“Mas Gui, vários desses filmes que você mencionou são mais suspense que terror, seu bobo!” Está aí um motivo importante para eu continuar batendo nessa tecla: mesmo parecendo terror, com gosto e cheiro de terror, parece ser mais vantajoso para as produtoras e distribuidoras que pretendem levar troféus para a estante abrandarem suas obras – ou a classificação delas na hora da divulgação – do que apostarem todas as suas fichas em um gênero para o qual narizes são torcidos.

Eu entendo que terror é como matemática: enquanto poucos amam, muitos odeiam. Porém, essa comparação também pode ser feita com alguns gêneros igualmente “nichados”, mas que são mais bem vistos pela crítica, como o faroeste, a ficção científica e a comédia. É como se o selo de terror servisse pra desqualificar uma obra de forma automática, independentemente de seu potencial criativo.

Se não bastasse esse preconceito da crítica, alguns subgêneros do terror sofrem ainda mais menosprezo, como os slasher movies, os filmes de zumbi, os representantes do gore, os found footage, os trashmovies, os filmes de vampiro, e por aí vai. Nessa hierarquia terrorística, ganha pontos quem menos derrama sangue e quem mais se aproxima da narrativa dramática que prende o cabresto nos olhos dos críticos. É o caso, por exemplo, dos thrillers psicológicos, tão queridinhos pelos adoradores do chamado pós-terror (rótulo intolerante criado pelo jornalista Steve Rose no artigo “How post-horror movies are taking over cinema”, publicado ano passado no The Guardian).

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Eu não sou ingênuo a ponto de afirmar que todas as produções de terror deveriam ser valorizadas e premiadas pela crítica. Apesar de fã, e também por ser fã, eu sei que há vários problemas estruturais na indústria do terror que fazem com que muita porcaria seja lançada aos montes por aí. As dificuldades de patrocínio geram um baixo orçamento, que por sua vez impede a contratação de uma boa equipe de produção e direção, que não consegue pagar um elenco mais experiente, e por fim a obra editada acaba sendo distribuída parcamente. O círculo vicioso se completa quando se torna impossível transformar o tímido lucro de bilheteria em investimento suficiente para melhorar a qualidade da próxima produção.

Ainda assim, há alguns exemplos de filmes de terror que, mesmo diante dessas dificuldades e de certo desdém da crítica, mostram que basta criatividade na hora de contar uma boa história para subverter as regras do sistema e manter a roda do terror girando. Aí vão algumas dicas, amiguinhos: O Gabinete do Dr. Caligari (1920), Nosferatu (1922), Psicose (1960), Os Pássaros (1963), Desafio do Além (1963), Repulsa ao Sexo (1965), O Massacre da Serra Elétrica (1974), Despertar dos Mortos (1978), Halloween – A Noite do Terror (1978), Holocausto Canibal (1980), Uma Noite Alucinante (1981) [e seu remake – Evil Dead: A Morte do Demônio, de 2013), Poltergeist (1982), A Volta dos Mortos-Vivos (1985), Cemitério Maldito (1989), Fome Animal (1992), Violência Gratuita (1997), Ringu – O Chamado (1998), Extermínio (2002), Jogos Mortais (2004), O Albergue (2005), Rejeitados pelo Diabo (2005), REC (2007), Deixe Ela Entrar (2008), A Órfã (2009), Babadook (2014), Corrente do Mal (2015), A Bruxa (2015), Invasão Zumbi (2016), A Autópsia (2016), Raw (2017) e Corra! (2017).

Por falar nele, vou cumprir minha promessa e terminar a coluna de hoje elogiando o filme do comediante (!!) Jordan Peele, que conseguiu criar um terror racial de hipnotizar. Convidado a passar um fim de semana com a família rica de sua namorada branca, o jovem negro Chris (Daniel Kaluuya) começa a estranhar o comportamento demasiadamente amigável dos anfitriões, que nunca perdem a oportunidade de enfatizar que não são racistas; afinal, eles até têm amigos negros!

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Até que seja revelado o que realmente acontece naquele lugar, é o comportamento desses “amigos” a causa de maior estranhamento no protagonista, que deve correr para tentar desvendar o mistério e achar uma saída para ir embora. Pronto! Não digo mais nada pra não estragar a surpresa de quem ainda vai ver essa belezinha (se esse é o seu caso, só digo uma coisa: Corra!). Apesar de já ter passado pelos cinemas brasileiros em maio de 2017, o espaço que Corra! vem conquistando nos prêmios internacionais pode fazer com que ele volte logo logo para as telonas em alguma mostra de melhores do ano.

Além de troféus em premiações americanas, canadenses e britânicas, Corra! foi indicado a dois Globos de Ouro (melhor ator – Daniel Kaluuya – que acabou perdendo para James Franco) e melhor filme de comédia ou musical (reparem só no nome dessa categoria – mais um sinal da desconsideração institucional sofrida pelo cinema de terror). Tem ainda o BAFTA, cuja premiação acontece mês que vem e, entre os indicados, está Corra!, que concorre em duas categorias: melhor ator e roteiro original.

A próxima aposta é o Oscar, que divulga seus indicados para a edição deste ano no dia 23 de janeiro. Será que Corra! tem alguma chance de entrar na corrida por uma estatueta?

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Guilherme Barreto
Guilherme Barreto

Filho do Jason, primo do Freddy, irmão do Chucky e amiguinho da Samara. Sou um menino de coração mole, mas que adora tripas cremosas, cérebros espatifados e fraturas expostas.

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