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Cine Mulher | As heroínas que destruirão Star Wars. E por que devemos agradecê-las

por Camila de Lira comentários

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Depois de um início nostálgico, o segundo episódio da nova trilogia – a terceira trilogia para dar sorte – de Star Wars veio para derrubar todos os mitos criados por George Lucas e para nos apresentar as mulheres – e as visões “femininas” – que farão isso. No lugar de reclamar do que um pouco de destruição pode fazer com as antigas imagens que temos de uma saga que gostamos, quero fazer um elogio à demolição de narrativas e jeitos de se criar histórias que tentavam por eliminar qualquer tipo de diversidade.

Vejam bem, colocar diversidade nas telonas não se trata apenas de distribuir papéis para atores que fogem do padrão de Hollywood, muito menos distribuir algumas mulheres em cena para que elas apareçam no fundo, lutando. Não. Diversidade é dar escopo para os personagens, é seguir numa narrativa que faça sentido para eles. É dar voz.

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Em “Star Wars e os últimos Jedi”, Rey (Daisy Ridley) divide espaço com Leia Organa (Carrie Fischer, saudades), Vice Almirante Holdo (Laura Dern) e Rose Tico (Kelly Marie Tran) nos papéis de grandes heroínas. Elas ganham ainda em profundidade de todos os três grandes personagens masculinos do filme.

O fio que une todas estas personagens distintas no Episódio VIII é o fato de que nenhuma delas é definida pela visão de homens, seja para sensualiza-las, seja para infantiliza-las – caminho comum seguido pelas sagas geeks para tratar de mulheres.Essas heroínas também não são definidas pelo relacionamento delas com outros personagens homens, seja romântico, seja parental. Elas são fortes, independentes, firmes, em alguns momentos, têm posicionamentos opostos aos personagens masculinos da história e não cedem para eles.

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Rey não segue o que Luke Skywalker (Mark Hammil) pediu que fizesse, ela percebe que os Jedi não são feitos só de luz e lida muito melhor com o lado negro do que todos os outros de todas as sagas do filme. Rian Johnson teve a oportunidade de dar a ela um par romântico, mas não o fez, tornando-a uma heroína única nas telonas. Nem mesmo a Mulher-Maravilha não teve um namorado.

Já Leia volta a usar a Força num momento decisivo, sem a ajuda de Luke. Aliás, Leia passa boa parte do filme sem encontrar seu irmão e sem o seu antigo parceiro Han Solo, agindo por sua conta e risco.

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Holdo enfrenta Poe Dameron (Oscar Isaac) por seu suposto ato heróico, que acabou matando mais pessoas da Resistência do que deveriam. Ela indica qual é o sacrifício que um herói faz, um sacrifício essencialmente feminino, que é feito em silêncio, em nome da proteção de todos.

Rose tenta honrar a memória de sua irmã ao seguir num plano de ajudar a resistência, ela é empática e se coloca no lugar dos que necessitam de ajuda. Até mesmo dos animais que precisam de ajuda.

Todas essas personagens reforçam uma nova visão para a trilogia, a de que a guerra e a violência não são a resposta, mas ações que cobram um preço algo, e que a resposta talvez esteja na união, na empatia, no amor. Sutilmente, a nova saga de Star Wars está se libertando da prisão que é a masculinidade clássica, aquela que dita que batalha sangrenta é necessária, que vencer uma luta é sinônimo de poder, que os mortos são heróis, que a empatia só serve para salvar seus amigos e que o amor é algo que se guarda para depois da guerra.

Rey se recusa a rebaixar ao que Kylo Ren quer que ela seja – uma companheira para comandar a galáxia, Rose vê que tanto a Primeira Ordem quanto a Resistência compram armas – “nós não devemos lutar contra aquilo que odiamos, mas ao salvar o que amamos”, diz ela, emocionada, no meio de uma batalha. Holdo, ah, Holdo escolhe se sacrificar em nome dos outros. E Leia, mais uma vez, lidera o grupo que sobrou da resistência para um abrigo.

Fãs fervorosos tendem a achar que a nova orientação da saga é fruto da Disney, mas essa é uma visão completamente pejorativa do que não é a masculinidade clássica. É difícil mudar, é ainda mais difícil deixar grandes ícones de lado. E, por muito tempo, os heróis masculinos clássicos foram hegemônicos – e se pensarem bem, eles ainda são, mesmo em filmes “comuns”. A mudança só vem com destruição. Por isso que digo e repito: Star Wars morreu. Deus – que todos sabem, é uma mulher negra – salve Star Wars!

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Camila de Lira
Camila de Lira

Jornalista formada pela USP, é cinéfila desde os 4 anos de idade, quando assistia a filmes da Disney, da Turma da Mônica e de Chaplin.Sonha em acordar num musical ou em um filme de Fellini ou num clipe de David Fincher.

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