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LGBTudo | O melhor filme sobre Aids

por Will Poliveri comentários
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Oi, gente! Vou correr o risco de soar repetitivo e falar de HIV em duas colunas seguidas. Já havia falado pra todo mundo ficar de olho no longa 120 Batimentos por Minuto, o selecionado pela França para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Porém, agora que ele estreou no Brasil, a surpresa pra mim é que ele merece ser visto não só pra entender porque ele foi ovacionado Cannes no ano passado, mas porque é o melhor filme sobre Aids que me lembro de já ter assistido.

Pra contextualizar, o longa do diretor Robin Campillo se passa no começo dos anos 1990. Ainda que o primeiro baque da epidemia de HIV já tivesse passado e já existisse medicamentos para tratar a doença, era o momento em que os grupos LGBTQ ainda se mobilizavam para garantir acesso ao tratamento e exigir avanços nas pesquisas, principalmente para aumentar a eficácia da medicação e diminuir os efeitos colaterais. Uma história que já vimos em outros filmes, mas que é contada sob um prisma totalmente autêntico, situando a ação no dia a dia do grupo de militantes Act Up. Mas o que faz este retrato cinematográfico ser tão emblemático?

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Primeiro de tudo, 120 Batimentos por Minuto toca em temas muito atuais, mesmo sendo sobre o passado. Nas duas horas de filme, ele fala de muito coisa que sequer era a preocupação mais urgente daquele momento histórico, mas que ainda hoje é tabu. Falar de sexo seguro na sala de aula era – e ainda é – necessário. E não adianta argumentar que isso estimula os alunos a transarem porque eles vão fazer sexo do mesmo jeito. A diferença é que a ignorância pode fazer muitos se contaminarem já na primeira vez. E sim: quando o assunto é proteção, a responsabilidade é dos dois parceiros, e não só do soropositivo.

Depois, porque é uma das raras vezes em que o HIV é mostrado como um problema que não atingem só os homens gays. No Act Up, está toda a diversidade afetadas pela doença: gays, lésbicas, trans, mães que se engajaram depois que os filhos foram contaminados.. E essa variedade faz o problema se ramificar em muitos pontos de vista. Estão lá a falta de tratamento, a ineficiência das estratégias de prevenção, a omissão do governo, a ganância da indústria farmacêutica, os efeitos que os medicamentos provocam nas pessoas trans ao interagirem com a terapia hormonal. E o mais importante: nada soa panfletário, piegas, didático ou esquemático.

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E, por último, porque mesmo mostrando dois personagens morrendo por causa das complicações da Aids, o longa foge da armadilha de usar esses acontecimentos apenas como um recurso dramático. Pelo contrário, consegue traduzir um significado muito mais poderoso. Vendo o filme, me lembrei de conversas com amigos que defendem que nossa existência LGBTQ em si já é um ato de resistência. No longa, a moral é de viver e morrer com HIV é mais do que uma condição: é um ato político. Cada morte, cada perda, é um jeito de de chamar a atenção para a urgência do assunto. Com barulho. Com passeatas. Com ações. É sempre um meio de levar a luta adiante, de não fazer esta perda ser em vão e mobilizar quem for preciso.

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Por mais que um filme sobre ativismo crie resistência e pareça desinteressante, 120 Batimentos por Minuto consegue a façanha de manter viva a história dos guerreiros que forçaram avanços no combate à Aids e nos motiva a continuar a luta. E esta com certeza é a mensagem mais poderosa que um filme sobre HIV pode deixar depois da sessão.

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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