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Cine Sinistro | Que plot twistão da porra!

por Guilherme Barreto comentários

Imagine só se todo filme, por mais complexo que fosse, tivesse de ser resumido em alguns pares de palavras, numa espécie de tuíte-biográfico. É batata arriscar que as histórias articuladas a partir de plot twists provavelmente seriam reduzidas às reviravoltas dos seus roteiros. “Aquele filme em que o fulano estava morto o tempo todo”; “a história que não passou de uma alucinação do cicrano”; “a trama em que o verdadeiro assassino era o mocinho”, e por aí vai.

Cena de Jogos Mortais - 2004

Essa enxurrada de spoilers não seria o maior dos problemas em resumos de bons filmes, aqueles com roteiros intrincados, tramas bem encaixadas, diálogos potentes e edição cativante. Nesses casos, a revelação do plot twist viria apenas como uma cerejinha do bolo, um mimo para o público (que já estaria satisfeito com o restante da sessão).

Acontece que o vício no uso de plot twists, mesmo quando não necessários, faz com que muita coisa ruim venha sendo lançada. É como se todo o filme existisse só para preencher (de forma medíocre) o espaço que rodeia a cena reveladora, aquela que deveria explodir nossos miolos, mas só acelera os bocejos.

E é aí que chegamos ao cinema de terror. Mais do que qualquer outro gênero, é ele quem melhor se apropriou do recurso de plot twists para assustar, enojar e surpreender. Desde O Gabinete do Doutor Caligari, de 1920, passando pelas revelações mindfuck das histórias de Alfred Hitchcock, até chegar aos sustos verossímeis causados pelos found footages do século XXI, é na sombra do terror que mora a verdadeira potência da surpresa.

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Porém, também são características de muitas produções de terror os menores orçamentos, os piores elencos e as continuações mais mercenárias do cinema, aquelas que só existem pra tentar repetir o lucro da primeira parte da série, mas que quase sempre derrapam nesse objetivo. É o caso, por exemplo, do recente Jogos Mortais: Jigsaw, a que assisti essa semana.

Que filme esquecível, amiguinhos. Eu até entendo que uma das intenções, sete anos após o lançamento da última parte da saga, era apresentar a perversidade punitiva de Jigsaw a um novo público, jovem demais para ter acompanhado aquele banho de bom cinema no início dos anos 2000.

Para isso, no entanto, seria necessário resgatar a punção criativa do diretor James Wan – aquela vocação gore que nos fazia afundar na poltrona, roer as unhas e quase despertava um vomitozinho de vez em quando. É inegável o legado, narrativo e financeiro, dos primeiros filmes da série – que surgiu de forma independente e despretensiosa – mas não dá pra engolir a divulgação enganosa dessa oitava sequência, que pintou o filme como a volta triunfal de Jogos Mortais. Como fã, eu sinto muito, mas está mais para enterro de uma boa ideia.

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Mas voltemos ao tema do título: os plot twistões da porra. No sentido literal, eles são as “torções de enredo”, aquelas revelações que fazem a cabeça entrar em parafuso. E é exatamente por esses mini-infartos que alguns filmes de terror ficam marcados para sempre na memória coletiva do público. É o caso de O Corpo que Cai (1958), Psicose (1960), O Bebê de Rosemary (1968), Sexta-Feira 13 (1980), A Bruxa de Blair (1999), Os Outros (2002), A Vila (2004), O Nevoeiro (2007), Arraste-me para o Inferno (2009), Corra! (2017), Grave (2016), entre outros.

Todos esses exemplos oferecem um roteiro muito bem desenhado que serve de estofo para que o plot twist brilhe e torne aquela uma história marcante. O problema é quando não há nada de relevante além de uma tentativa desesperada de impressionar o público com uma reviravolta maluca – e quase sempre previsível, como Jogos Mortais: Jigsaw e tantos outros filmecos dispensáveis por aí.

Para ganhar meu coração, os melhores plot twists do terror são aqueles totalmente imprevisíveis, que me fazem questionar a minha capacidade de observação e percepção; os que enganam público e personagens, sendo revelados de maneira única para quem está fora e dentro do filme; e os que surgem nos últimos minutos da história, oferecendo um desfecho que resume toda aquela confusão e que me deixa com cara de tacho por não ter percebido as pistas antes.

E para vocês, amiguinhos, qual é o plot twist do cinema de terror que mais merece o seu troféu de plot twistão da porra?

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Guilherme Barreto
Guilherme Barreto

Filho do Jason, primo do Freddy, irmão do Chucky e amiguinho da Samara. Sou um menino de coração mole, mas que adora tripas cremosas, cérebros espatifados e fraturas expostas.

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