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LGBTudo: Precisamos falar sobre HIV

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinxs! Faz quase 3 décadas que o vírus HIV e a Aids provocaram um choque na comunidade LGBTQ. Uma sequência de mortes que se alastrou justamente quando criávamos novos espaços de socialização, nos organizávamos para lutar por nossos direitos e dávamos forma a uma cultura cheia de ícones e significados. Felizmente, hoje o combate ao vírus é eficiente e a qualidade de vida de um soropositivo é igual à de alguém sem o vírus. Mas, pelo menos nos produtos audiovisuais que tratam do assunto, parece que ainda vivemos no ápice da epidemia.

De modo geral, a grande maioria dos filmes que falam sobre HIV voltam ao final da década de 80 para mostrar o impacto da doença no mundo LGBTQ. Claro, é uma abordagem histórica importante para lembrar de todos que se foram e cujas vidas garantiram os avanços na medicina e assistência social. Ainda mais para os jovens, que não passaram pelo pânico das décadas anteriores e não viram seus ídolos perderem a luta contra a doença, é um jeito de mostrar quão devastadora pode ser a infecção. É neste âmbito que entra o premiado The Normal Heart, por exemplo.

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Porém, esta abordagem acaba tendo um outro lado perigoso: ao constantemente relembrar a fatalidade da doença, essas narrativas continuam alimentando a visão de que ser diagnosticado com HIV é uma sentença de morte. Quer um exemplo? Dificilmente um personagem soropositivo sobrevive ou leva uma vida comum sem definhar diante do público. Claro, faz parte do contexto dos anos 80, mas só retratar a Aids assim faz parecer que nada mudou.

Sinto falta de ver personagens soropositivos que levem uma vida comum, no qual a doença não é a única característica que os define. Até porque conflitos envolvendo a soropositividade vão muito além da saúde e da morte: existe o preconceito social, a própria aceitação da doença, como sair deste segundo armário para a família, a discriminação no ambiente de trabalho… Histórias que foram contadas em Filadélfia ou pinceladas em Looking e How To Get Away With Murder, mas que poderiam ter mais espaço na TV e no cinema.

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Acabei de citar Looking e é justamente a série da HBO que tem o melhor personagem soropositivo dos últimos tempos. Quando Eddie surge na segunda temporada, temos ali um personagem gay e HIV+ para quem a doença não é um obstáculo, que leva uma vida normal, se diverte, participa de um grupo de apoio a outras pessoas na mesma situação e ainda faz seu parceiro repensar seu preconceito com a doença. Eddie é, de longe, o personagem com a maior vivacidade da série, apontado por fãs como o mais carismático e memorável. Pena que o seriado foi cancelado no fim da segunda temporada, pois teria sido incrível ver até onde o personagem iria e como a forma natural que ele tratava sua sorologia podia quebrar estigmas.

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O cinema e a TV foram essenciais para fazer com que homossexualidade, transexualidade e casamento gay fossem melhor entendidos. Só gostaria que o mesmo acontecesse com HIV e Aids, principalmente dentro da própria comunidade LGBTQ. É uma daquelas oportunidades em que o entretenimento pode ter um efeito social, gerando empatia nas pessoas e fazendo com que uma vida soropositiva cause menos medo e rejeição.

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Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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