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Multitela | Meus Quinze Anos funciona apesar de Larissa Manoela

por Vito Antiquera comentários

Larissa-Manoela

Toda geração tem seus ídolos, assim como toda geração tem seus ícones. Pode parecer exatamente a mesma coisa, mas não é: ídolo, na percepção desse cinéfilo que vos fala, é aquele grande expoente que, por sorte ou mesmo um pouco de talento (genuíno ou financeiramente criado) faz sucesso e carrega consigo a responsabilidade de ser voz de uma geração. Ícone é basicamente a mesma coisa, com uma pequena diferença: um ícone não perece, tem substância e realmente se mantém como marco para próximas gerações.

Por que essa introdução? Sempre tive a impressão de que Larissa Manoela fosse apenas um ídolo, e que não era um ícone geracional propriamente dito. Mesmo tendo visto um pouco dos seus primeiros trabalhos, a impressão que tinha era exatamente a mesma que sempre tive de crianças atuando: pode parecer talento, mas na grande maioria das vezes é empatia pela idade misturada com um pouco de treinamento. Atualmente, ela tenta se desassociar de sua Maria Joaquina em Carrossel, mas não parece muito fácil – suas declarações, instastories, entrevistas e até vídeos para a TV Veja soam forcados e cheios de gargalhadas falsas. Aparentemente, é mais um produto que um talento. Entendemos que ela cresceu diante das câmeras, e isso pode gerar concepções de autoimagem disfuncionais – no final, ainda fica a impressão de que a transição está mais falsificada do que complicada.

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A Larissa saiu da Maria Joaquina mas será que a Maria Joaquina saiu da Larissa?

Mesmo com tudo isso decidi assistir Meus Quinze Anos, seu filme de estreia como protagonista adolescente. E o longa tem de tudo, incluindo todos os requisitos técnicos pra ser um bom entretenimento: fotografia bonita, som direto nítido, trilha sonora que reaproveita (de maneira esperta) uma mescla de músicas nacionais e internacionais, versões de Claudinho e Bochecha na voz de Roberta Sá, duas músicas originais cantadas pela diva teen – e até um casal de professoras lésbicas que pode passar desapercebido aos olhos menos treinados, mas que foi colocado ali com (astuta) naturalidade que seu público-alvo vê essa formação da possível nova família brasileira. Tem também os bons e por vezes ótimos coadjuvantes responsáveis pelo alívio cômico da narrativa, incluindo desde o pai-humorista (Rafael Infante, ótimo e ex-Porta dos Fundos) até a participação de Anitta como atriz-sendo-cantora. No final, o filme funciona – e é isso que importa.

Obviamente, há um exagero do roteiro em insistir na transformação de “patinho feio” que atualmente não funciona mais. Mesmo bem trabalhada como clichê da vez, é algo que poderia até render, mas há um motivo mais especifico pelo qual essa modificação tão usada no cinema não funcionar aqui: a falta de verdade em tudo que Larissa Manoela faz. Como produto, a diva teen se garante: tem carisma, voz, presença de cena. No entanto, não tem talento como atriz pelo simples motivo de que não carrega sua própria verdade, não imprime sua personalidade em nenhum personagem – muito menos nessa sua Bia que, seja nerd ou princesa, não transmite nenhuma veracidade e não expõe nenhuma camada e nuance além do que está ali exposto. Seu choro é soluçadamente falso, sua entonação é totalmente treinada e, apesar da câmera gostar dela e da plasticidade do filme agir a seu favor, não há nenhuma essência real na juventude daquela menina-moça.

Por isso, mesmo que hajam ótimos aproveitamentos do roteiro em relação aos estereótipos que atualmente talvez não façam mais sentido – nerd, popular, festa de 15 anos – e tudo tenha uma encenação razoavelmente natural para a maioria dos atores, a trama central resvala única e exclusivamente na falta de sinceridade de Larissa; o amadurecimento da personagem tendo a festa de 15 anos como paralelo central não fica evidente porque Larissa não consegue humanizar sua Bia. Ela está tão distante daquela personagem que nos afasta cada vez mais toda vez que (re)age em cena.

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Olha que natural!

Por fim, é triste – e também bastante irônico – percebermos que, em um filme que discorre tanto sobre a necessidade de nos encontrarmos e nos identificarmos enquanto seres humanos, não há empatia com a personagem central exatamente porque não sabemos quem é Larissa Manoela; torçamos para que, acima de tudo, quem encontre uma personalidade seja a própria Larissa – um produto até acidental que passou a vender bem e só está a serviço disso atualmente. Mesmo mudando o cabelo, deixando de usar óculos ou colocando silicone aos 15 anos, a essência não transparece sob essas camadas. Continuando assim, esse caminho só aparenta manter um ídolo; quem sabe, quando encontrar sua própria verdade, Larissa possa virar um ícone de verdade com o talento mais importante que ela deveria ter: saber atuar e, acima de tudo, Ser.

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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