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Cine Mulher | Harvey Weinstein não é um problema só de Hollywood

por Camila de Lira comentários

Um homem poderoso foi acusado de utilizar o seu alto cargo, o seu nome de destaque e a sua grande rede de contatos para abusar de mulheres iniciantes (e algumas estabelecidas) na carreira no setor que comandava em troca de indicações para trabalhos. Quando elas recusavam a “lisonjeira” investida agressiva, este homem ameaçava de dar cabo com as suas carreiras – e algumas vezes, de fato, ele conseguiu fazer isso. Se elas falavam do ocorrido para colegas, a resposta era que elas estavam exagerando e que elas sabiam que o meio era mesmo assim.

A gente sabe que o mundo está completamente errado quando você só sabe de quem estou falando porque coloquei o nome da pessoa no título e não porque a acusação seja única, a ponto de destacá-la no meio dos homens poderosos. Ou no meio da indústria do cinema.

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Não, ao contrário do que muitos do que dizem seus detratores, Harvey Weinstein não é um doente, psicopata ou tarado maluco, ele é fruto de uma cultura que se alimenta em desumanizar mulheres – sendo a objetificação e a hipersexualização apenas a ponta do ice berg de todo um comportamento que, constantemente, minimiza o feminino em detrimento do masculino (porque ser “mulherzinha” ainda é uma ofensa, até mesmo entre mulheres), o que no final cabe muito bem na hora de silenciar mulheres, afinal, elas são malucas, instáveis e emocionais, não dá pra confiar, né?

O que Weinstein fez deixou o meio artístico enojado, mas apenas a parte masculina deste bolo estava chocada porque para as mulheres, a realidade é uma só: o mundo está cheio de Harvey Weinsteins. Existe, obviamente, um quê de hipocrisia, ou poderíamos chamar de “preocupação com a imagem”, no “choque” mostrado por alguns artistas logo depois que os fatos sobre Weinstein chegaram à tona por meio de reportagens do “The New York Times” e da “New Yorker”, porque muitos deles não só sabiam o que ele fazia (oi, Tarantino, tudo bem?), como também fazem igual (olá, Ben Affleck).

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas por exemplo, expulsou Weinstein, no comunicado, afirmou “fazemos isto não só para nos separar de alguém que não merece o respeito dos seus colegas mas também para enviar a mensagem de que a era da ignorância deliberada e da cumplicidade vergonhosa com os comportamentos sexuais de depredadores na nossa indústria acabou”. Nesse documento, a Academia esqueceu de comentar que Bill Cosby (que está sendo julgado por estupro e que foi acusado de abusar sexualmente de mais de 50 mulheres em toda carreira) e Roman Polanski (que chegou a ser preso por abusar sexualmente de uma garota de 13 anos) continuam como parte de seus membros.

Existe um sério perigo de Weinstein virar o único monstro a ser combatido e derrotado por parte da indústria cinematográfica, protegendo assim os seus iguais de dentro e de fora do meio artístico norte-americano, porque ele não é sozinho, e o seu caso não é isolado. O problema é o meio tratar a total extirpação de Weinstein como um símbolo de que “hey, o machismo morreu, agora que Weinstein não está aqui, estamos num lugar mais equalitário”. E sabemos que não é isso que irá acontecer.
A lição final dessa nojeira toda com o Weinstein não é o que acontecerá com ele, mas o que vai acontecer quando descobrirmos o grau de mudança que temos na cultura machista como um todo quando, simplesmente, falamos – e principalmente quando escutamos de verdade, quando questionamos situações de abuso que são consideradas “corriqueiras”. Porque se tem algo que abusador-serial gosta, é de silêncio. E, ao falar, a gente garante que eles não terão mais isso nas mãos. Ao falar, eles vão perder aos poucos o nome, a carreira e tudo aquilo que os permitem continuar abusando. Ao falar, a gente quebra o ciclo, e é o ciclo que a gente quer acabar, não com apenas Harvey Weinstein.

Studio na Colab55
Camila de Lira
Camila de Lira

Jornalista formada pela USP, é cinéfila desde os 4 anos de idade, quando assistia a filmes da Disney, da Turma da Mônica e de Chaplin.Sonha em acordar num musical ou em um filme de Fellini ou num clipe de David Fincher.

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