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Crítica | As boas maneiras

por Pedro C. Pardim comentários

Foram poucas as vezes que entrei em um cinema completamente desinformado do filme que assistiria. Foi assim com “As boas maneiras”, novo longa de Marco Dutra e Juliana Rojas. Já admirador de seus trabalhos solos, a minha primeira experiência com um filme dirigido pela dupla foi no mínimo surpreendente. Me deparei com uma fábula essencialmente paulistana, que explora os contrastes e as intensidades da maior cidade da América Latina para contar uma história fantástica, sem medo de chocar e que encontra na mistura de diferentes gêneros narrativos espaço para a originalidade.

As Boas Maneiras

A minha exposição da trama será a mais vaga possível, pois minha falta de qualquer informação prévia acrescentou muito à minha experiência (inclusive não recomendo assistir ao trailer que se encontra no final desse texto). O filme acompanha Clara (Isabél Zuaa), uma enfermeira da periferia de São Paulo que é contratada por Ana (Marjorie Estiano) para ser babá de seu filho que está para nascer. No meio tempo, Clara a auxilia na gravidez, o que fortalece a relação entre as mulheres.

Focando exclusivamente na relação entre as moças, a primeira metade do filme é primorosa. Envolto por uma atmosfera sombria, o longa deixa algumas pistas no caminho e vai, aos poucos, revelando seu aspecto fantástico. Os diretores compreendem a proximidade entre a tensão do terror e o alívio do humor e criam cenários que mesclam estas reações distintas causadas ao público de forma bastante criativa.
A química entre Clara e Ana é incontestável. Enquanto a Clara de Isabél Zuaa é muito observadora e encontra no olhar a principal forma de se expressar, A Ana de Marjorie Estiano é desinibida e comunicativa. A personagem de Marjorie vem de uma família rica do interior de Goiás e a incorporação de trejeitos e do sotaque típico da região é extremamente convincente.

Se Ana vem de uma família tradicional do ruralismo brasileiro, Clara é pobre, negra e marginalizada. Este choque social e racial só enriquece o desenvolvimento da relação entre as personagens e acrescenta camadas de relevância para o filme.

Fascinantemente, o longa ainda conta com sequências musicais. As belíssimas composições originais aproximam o filme ainda mais às fábulas e o faz ainda mais emocionante.

Mas “As boas maneiras” é objetivamente dividido em duas partes. A segunda metade passa de um suspense psicológico sobre gravidez para uma história fantasiosa sobre maternidade e amadurecimento. Por mais que faça sentido narrativamente e enriqueça o filme tematicamente, é notável o surgimento de alguns problemas no longa. Depositando muita responsabilidade em atuações infantis, o filme perde em credibilidade, inclusive afetando a antes ótima performance da protagonista. Além disso, o ritmo se torna um pouco arrastado e cansativo, mas que é minimizado pela emocionante conclusão.

Problemas a parte, “As boas maneiras” me surpreendeu demais. Trata-se de um filme corajoso e original. Sem medo de exagerar, Marco Dutra e Juliana Rojas entregam um retrato fantástico e encantador de uma caótica São Paulo.

Obs.: “As boas maneiras” faz parte da programação do Festival do Rio 2017 e ainda não tem data de estreia prevista para os cinemas brasileiros.

Studio na Colab55
Pedro C. Pardim
Pedro C. Pardim

Graças aos meus pais estou em contato com a cultura e artes em geral desde muito cedo, mas a minha paixão é pelo cinema. Sempre foi. Não só paixão, escolhi (e espero) ter o cinema como minha profissão.

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