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Crítica | Zama

por Pedro C. Pardim comentários

Lucrécia Martel é um dos grandes nomes do cinema latino-americano contemporâneo. Seu novo filme, “Zama”, é sua maior produção, mas a diretora não se afasta da simplicidade e do olhar distinto a seus personagens presentes em seus trabalhos anteriores. Trata-se de um épico colonial, sujo e realista em muitos aspectos, mas que caminha elegantemente pelo fantástico.

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Adaptado de um livro homônimo, “Zama” é uma coprodução entre Argentina e Brasil e acompanha Don Diego Zama (Daniel Giménez), um oficial espanhol do século XVII que trabalha em uma das colônias da Coroa. Por motivos pessoais, o protagonista aguarda pela autorização de sua transferência para Buenos Aires.

Uma das principais questões levantadas pelo filme é a relação dicotômica entre subordinação e desejos pessoais. As vontades de Don Diego contrastam com seu cargo de funcionário real e esbarram, constantemente, em burocracias e hierarquias. Portanto, a paciência é tema chave do filme e está presente inclusive em sua concepção estética. Contemplativo em diversos momentos, “Zama” nos convida a acompanhar o cotidiano de seu protagonista enquanto se frustra em alcançar o que deseja.

Outro tema abordado pelo filme é a questão do mito, seja ao desmitificar qualquer glamour da vida de um explorador colonial (o contraste entre suas vestimentas requintadas tomadas pelo suor e o ambiente rústico aliado ao clima tropical é o que constrói o aspecto sujo do filme, citado anteriormente) ou ao lidar, muitas vezes de forma concreta, com o medo do desconhecido. Este último aspecto está presente principalmente no último terço do longa, quando a produção ganha proporções muito mais exploratórias e características oníricas, além de introduzir o personagem vivido pelo brasileiro Matheus Nachtergaele, que singularmente personifica os receios dos exploradores.

Lucrécia trabalha aqui principalmente com planos confinantes, que a permitem explorar a relação da disposição e a movimentação de seus personagens com aspectos fora do quadro. Muitos dos diálogos e das ações presentes no filme nos são apresentadas através de planos de reação, o que demonstra enorme capacidade da diretora em posicionar o espectador também num lugar de anseio e mistério, o que dialoga diretamente com as temáticas míticas de “Zama”.

Paciente, tanto no resultado quanto no desenvolvimento de seus projetos (foram nove anos desde seu longa anterior), Lucrécia entrega um épico deslumbrantemente sujo e audacioso, que encontra no aguardo e no desconhecido espaço para a contemplação. Que não tenhamos que aguardar tanto tempo pelo seu próximo trabalho.

Obs.: “Zama” faz parte da programação do Festival do Rio 2017 e ainda não tem data de estreia prevista para os cinemas brasileiros.

Studio na Colab55
Pedro C. Pardim
Pedro C. Pardim

Graças aos meus pais estou em contato com a cultura e artes em geral desde muito cedo, mas a minha paixão é pelo cinema. Sempre foi. Não só paixão, escolhi (e espero) ter o cinema como minha profissão.

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