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Críticas

Me chame pelo seu nome

por Pedro C. Pardim comentários

“É melhor falar ou morrer? ” – Lê a mãe do protagonista para seu filho, em determinado momento de “Me chame pelo seu nome”. Esta citação de “O Heptameron”, além de tracejar as motivações narrativas do enredo e de seus personagens, diz muito sobre o novo trabalho de Luca Guadagnino: de forma intensa e delicada, e mesmo sem verbalizar, seu filme decide falar. E diz muito sobre amor, sobre apreço, sobre desejos, sobre aceitação.

me-chame-pelo-seu-nome-Cópia

Ambientado no norte da Itália no ano de 1983, o filme acompanha Elio (Timothée Chalamet), um jovem americano que faz parte de uma família rica, multicultural e artística. Seu pai (Michael Stuhlbarg) é um importante historiador que todo verão recebe um estudante para auxiliá-lo em suas pesquisas. O escolhido deste ano é o americano Oliver (Armie Hammer), que de cara chama a atenção pelo charme e pela beleza.

Elio é extremamente culto e educado, capaz de tocar a mesma música de Bach de maneiras distintas, evocando o estilo de outros artistas. Mas, citando o próprio protagonista, Elio não sabe de nada. Tomado pelas inseguranças da idade, o jovem ainda há de explorar os aspectos de sua sexualidade e o verão de 1983 se mostrará fundamental nesse processo de autoconhecimento. O garoto e Oliver vão se aproximando no decorrer do verão e compartilham momentos que variam entre a ternura e uma tensão sexual tangível.

Criado em um ambiente acolhedor, as inseguranças sexuais do garoto transpassam muito mais o âmbito da autoconsciência e da inexperiência do que uma questão de gênero. Elio não repreende em nenhum momento suas atrações. Além disso, o garoto demonstra uma sexualidade muito ampla, já que o envolvimento que possui com a jovem Marzia (Esther Garrel) é claramente também movido por desejos, mas nada próximo do que é construído com Oliver. A relação entre os rapazes é única, dessas que raramente aparecem e dificilmente são aproveitadas. Requer coragem para nota-la e vivencia-la plenamente.

Armie Hammer geralmente vive um perfil muito específico de personagem: o galã rígido, muito comportado. Oliver tinha potencial para cair neste mesmo arquétipo, mas desde sua primeira cena o ator desconstrói esta possibilidade. Por mais que seja sensual, sua performance não é nenhum momento pedante. Há, inclusive, trejeitos desengonçados em seu personagem. Ele anda de forma relaxada e sua dança é desajeitada, o que o torna bastante carismático. Mas o filme é mesmo de seu protagonista. Timothée Chalamet entrega uma performance arrebatadora. Todos os desejos e inseguranças estão presentes no seu olhar e seus momentos explosivos de intensidade condizem perfeitamente com o momento de descoberta de seu personagem.

Luca Guadagnino é muito elegante em sua direção. É notável a capacidade do italiano de construir um filme que é, ao mesmo tempo, delicado e erótico. Além disso, o diretor desenvolve as relações entre seus personagens na construção dos momentos mais pessoais. Inclusive, é ao explorar a fragilidade de uma figura que raramente à demonstra, que Luca conquista de vez o espectador. Se não bastasse a sensibilidade do desenvolvimento do casal, o diretor faz da honestidade e do afeto familiar um ponto chave de seu filme.
Enquanto rolam seus créditos finais, “Me chame pelo seu nome” te faz perceber que é preciso coragem não só para aproveitar as oportunidades que aparecem, mas também para aceitar e valorizar a importância de cada experiência.

Obs.: “Me chame pelo seu nome” faz parte da programação do Festival do Rio 2017 e têm estreia prevista para 18 de janeiro nos cinemas brasileiros.

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Pedro C. Pardim
Pedro C. Pardim

Graças aos meus pais estou em contato com a cultura e artes em geral desde muito cedo, mas a minha paixão é pelo cinema. Sempre foi. Não só paixão, escolhi (e espero) ter o cinema como minha profissão.

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