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A Forma da Água

por Pedro C. Pardim comentários

Guillermo del Toro é um grande artista. Adepto de efeitos práticos, o diretor consegue unir seus belíssimos desenvolvimentos de mundo à um entendimento e capacidade de reconstrução de gêneros narrativos, o que resulta em obras verdadeiramente únicas. Seu novo filme, “A Forma da Água”, possui o melhor de todas as suas características. Trata-se de uma fábula sobre amor e solidão, que impressiona visualmente e encanta pela sensibilidade.

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Situado durante a guerra fria, o filme acompanha Eliza (Sally Hawkins), uma moça muda que trabalha na equipe de limpeza de um laboratório americano. Sua rotina monótona é quebrada quando uma criatura (Doug Jones) é trazida e mantida em cativeiro, na intenção de ser estudada.
É notável como a “Água”, presente no título, tem influência direta em vários aspectos do filme, tanto estéticos, uma vez que a cor verde (ou azul-petróleo) é predominante, quanto temáticos, já que a água é importante de muitas formas para a protagonista, ganhando significados específicos em momentos distintos. Ela ressalta sua solidão, remete a sua infância e estimula sua sexualidade.

Eliza se sente isolada, e não é a única. “A Forma da Água” é povoado por personagens solitários. Seja a criatura, única de sua espécie, ou o Giles (Richard Jenkins), o vizinho artista e velho da protagonista. Até mesmo o vilão, vivido pelo ótimo Michael Shannon, compartilha do sentimento de não pertencimento à época ou situação que está presente. Este ponto em comum enriquece as relações entre os personagens e resulta em momentos extremamente cativantes, como o monólogo de Eliza sobre o que torna um ser “humano”, potencializado pela sua incapacidade de fala e pela potente performance de Sally Hawkins, que traz no olhar todo o encantamento e a força de sua personagem. A britânica inclusive já é favorita para a temporada de premiações do ano que vem.

Meu uso de adjetivos específicos para a descrição dos personagens no parágrafo anterior não foi à toa. Del Toro se utiliza de muitos arquétipos na construção de seus personagens: quem é malvado é muito malvado e quem é bonzinho é muito bonzinho. Mas isto não o impede de desenvolver arcos interessantes ou de criar personagens complexos. Muito pelo contrário. A estrutura narrativa de seu filme é valorizada através de seus personagens, que intensificam tantos os momentos de ternura quanto os momentos de horror.

Outro aspecto fundamental nos filmes do diretor é a direção de arte. Seja pelos cenários gigantescos, ou pelo design maravilhoso da criatura, o fato dos efeitos serem majoritariamente práticos torna tudo mais crível e material, além de criar uma estética absolutamente autoral. Não é necessário mais do que um quadro para reconhecer um filme do del Toro.

Inquieta, a câmera não para um segundo, mas em nenhum momento ela é instável. Isto garante uma imersão ao mundo desenvolvido e permite que o espectador aproveite melhor cada detalhe construído.

“A Forma da Água” é encantador. Esta fábula fantástica revelou o lado mais fofo do Guillermo del Toro, com declarações de amor ao cinema e até mesmo sequências musicais (uma delas, inclusive, é arrebatadora. Dessas cenas de arrancar o coração fora). Mas ainda trata-se de um filme do del Toro. O mexicano não tem medo de ser gráfico quando precisa. Ainda que mais moderado, o diretor sabe chocar e assim o faz.
Ao retornar ao mundo fantasioso, onde claramente se sente mais confortável, del Toro arregaça as mangas e mostra todo o seu talento. É um de seus melhores filmes e merece muito ser visto.

Obs.: “A Forma da Água” foi o filme de abertura do Festival do Rio 2017 e tem estreia prevista para o dia 11 de janeiro de 2018 nos cinemas brasileiros.

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Pedro C. Pardim
Pedro C. Pardim

Graças aos meus pais estou em contato com a cultura e artes em geral desde muito cedo, mas a minha paixão é pelo cinema. Sempre foi. Não só paixão, escolhi (e espero) ter o cinema como minha profissão.

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