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multitela: O que o cinema americano poderia aprender com Jane The Virgin?

por Vito Antiquera comentários
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Sim, coleguinhas, estamos mesmo dizendo que o cinema americano poderia aprender – e muito – com essa série despretensiosa do canal americano CW, uma adaptação da telenovela colombiana que teve versões em diversos países latino americanos; essa mesma obra de teledramaturgia que conta a história pouco comum – e, dizem, baseada em fatos reais – de uma moça virgem (Gina Rodriguez, um poço de carisma) que engravida devido a um procedimento de fertilização feito “na pessoa errada”. Há os personagens familiares, o triangulo amoroso, a vilã rival e os enredos criminosos absurdos – todos circundados por uma contextualização cultural latina (venezuelana, para ser mais exato) com ensinamentos religiosos que fortalecem os conceitos de família e as instituições básicas americanas. Mas então, como o cinema pode usufruir desse aparente poço de clichês? Exatamente fazendo uso desses lugares-comuns.

Apesar dessas premissas complicadas (religião, cultura e conceitos pré-definidos para relacionamentos e comportamentos), Jane The Virgin consegue algo bem difícil: faz uso de maneira implícita e por vezes descaradamente de seus próprios clichês para subverter sua obra original e realizar autocrítica de gêneros televisivos, construção social e outros diversos temas caros à sociedade americana atual. Ao final, apresenta uma trama simultaneamente cafona e séria, que sempre respeita as diferenças étnicas e artísticas das culturas que abrange e, acima de tudo, preza pela qualidade nas referências e tradições das histórias que conta – tudo com humor, leveza e muito humanismo. Alguma película recente que foi vencedora do Oscar de Melhor Filme nos últimos anos teria algo parecido? Eu acho que sei a resposta.

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Uma das coisas que o cinema americano atual precisa – ao invés de aparentemente continuar perdido numa bipolaridade besta entre “cinema sério/artístico” versus Velozes e Furiosos – é aprender a rir de si mesmo. Não de uma maneira “Tarantinesca” ou mesmo com excessos de filmes de ação recheados de comédia e piadinhas inteligentes – vide o selo Marvel. O mais importante é fazer isso utilizando dos clichês sem querer parecer inteligente ou diferente de qualquer coisa, e mantendo-se na contemporaneidade. Talvez por ser uma série de um canal jovem, Jane The Virgin faz isso constantemente, tirando sarro não somente das telenovelas e seus galãs, mas também (e muitas vezes, por consequência disso) do mundo das celebridades e respectivos hashtags, “shipadas”, seguidores/followers, e por aí vai. Além disso, é uma das poucas séries que inseriu a tecnologia de maneira cotidiana e constante, mostrando que seus personagens realmente utilizam celulares para mandar mensagens e fazer pesquisas DURANTE AS CENAS/DIÁLOGOS.

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Em relação aos temas sérios, pode-se dizer que a série estaria em um entrave bem grande: como parecer atual e até feminista para seu público alvo falando de casamento, virgindade e triângulo amoroso de maneira tão extensiva? Temos aí mais uma qualidade que deve ser atribuída ao grande número de escritoras, diretoras e à própria criadora da série, Jennie Snyder Urman: não evitam discutir até a ideia e seriedade dos princípios feministas, fazendo uso do próprio enredo da série como sátira. Em um dos episódios, até a história de Jane é “submetida” ao teste de Bechdel– que questiona se uma obra de ficção possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. A maioria dos filmes e obras de entretenimento atuais, por incrível que pareça, não passam nesse teste. E, ao final e com muito humor sobre suas origens, Jane demonstra que não só passa como está bem mais “avaliada” do que a grande maioria das obras.

A série também satiriza os conceitos de arte em si – algo que, se pensarem bem, não faria mal às teorias e ao próprio cinema americano contemporâneo “sério”. Em determinada episódio, um galã de telenovelas interpretado por um ator que é, na vida real, um galã de telenovelas no México, opina sobre o trabalho de ninguém menos que Marina Abramović dizendo que encarar pessoas por horas (como ele mesmo faz com o jogo de câmeras das telenovelas, por exemplo) não é arte, e sim falta de educação. Nada mais sintomático do que um representante de um modelo popular de entretenimento usualmente não validado pela crítica questionar exemplares de uma arte contemporânea que, na verdade e apesar do entusiasmo de critico especializados, ainda não se provou com um público alvo abrangente.

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Em um outro momento, quando estão falando da veracidade dos acontecimentos da telenovela gravada dentro dessa telenovela em formato de série, um dos personagens brinca que esse é o atrativo das novelas: tudo não precisa parecer necessariamente verdadeiro – e, exatamente nesse momento, um narrador constantemente utilizado diz que “isso é verdade”, e vemos diversas cenas que são absurdas e permearam a própria série. Sim, isso é perspicácia de saber mexer com o público e saber rir dos próprios absurdos.

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Por último, algo mais que essencial: por mais que a serie lide com estereótipos, todos são desconstruídos aos poucos, mantendo tudo de maneira respeitosa e homenageando todos os grandes pilares das culturas envolvidas. E mesmo com todo esse respeito, nada deixa de ser – aos olhos desse cinéfilo, homem cisgênero e homossexual – bastante crítico e por vezes feminista, considerando que toda a história gira em torno de uma família de três mães solteiras que têm que lidar com as irresponsabilidades dos respectivos homens que as cercam.

Não por coincidência, talvez, todos os chefes das máfias e organizações criminosas são mulheres – o que podemos dizer que quase nunca ou nunca mesmo aconteceu em qualquer dos meios de entretenimento americanos existentes. No enredo, o protagonismo feminino e as mudanças geracionais são temas concomitantes, juntando a necessidade e vontade de ser independente à premissa da protagonista de ter alguém ao seu lado como companheiro. Uma encenação jovial com conteúdo familiar, mas que não deixa de ser inteligente e popular – sempre valorizando ao máximo o laço emocional dessa família de mulheres imigrantes. Quantas vezes vemos isso nas telonas ou mesmo na grande maioria das series e minisséries? Acho que Jane The Virgin pode parecer ingênua, mas é muito mais inteligente e perspicaz do que a grande maioria dos conteúdos (sobrevalorizados ou não/cinematográficos ou não) que temos por aí.

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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