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Corra!

por Pedro C. Pardim comentários
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Estamos vivendo em um bom momento dos filmes de terror. Seja por abraçar o gênero e usar suas particularidades de forma eficiente, como é o caso dos dois “Invocação do Mal” e do “O homem nas sombras”, ou por usar o horror como metáfora para discussões engajadas, como em “O Babadook” ou no iraniano “Sob a Sombra”, o terror vem entregando alguns sucessos de crítica e de público a alguns anos. “Corra!” é um destes destaques em 2017 que, além de se encaixar no segundo grupo dos descritos acima, usa das características de seu diretor para construir uma história absolutamente ácida e relevante.

O filme acompanha Chris (Daniel Kaluuya), um jovem negro que vai conhecer os pais de sua namorada branca, Rose (Allison Willians), pela primeira vez. A história se desenvolve quando as tensões raciais passam de comentários infelizes e preconceituosos para algo muito mais sinistro e conspiratório.

Nesta que é sua estreia como diretor, o comediante Jordan Peele usa e abusa de seu humor irreverente para satirizar e criticar o racismo. Seja ele num aspecto pós-moderno, que acredita numa sociedade que já o superou, como na excelente cena da festa burguesa em que o protagonista ouve comentários dos mais absurdos como “Você acredita que a realidade social dos afro-americanos te traz mais benefícios ou malefícios? ” pelo fato de ser o único negro no lugar (o único não, já que é a presença de outro, vivido pelo ótimo Lakeith Stanfield, e seu comportamento no mínimo estranho que faz Chris desconfiar que há algo estranho acontecendo naquela comunidade), ou num aspecto mais histórico, trazendo pautas como a apropriação cultural e pessoal contra os negros.

Jordan Peele deixa claro que seu filme possui um discurso racial forte desde o começo. A apresentação do protagonista se dá ao som da deliciosa “Redbone”, do Childish Gambino, mais especificamente no seu refrão, com a frase “Stay Woke” (mantenha-se acordado), que, além de antecipar elementos de horror do longa, já evidencia todo o engajamento da produção, pois trata-se do lema do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), um dos mais importantes na luta contra a violência direcionada a negros.

O humor é outro ponto chave do filme, principalmente no personagem do Rod (LilRel Howery), melhor amigo de Chris que acompanha as ações do filme à distância, o que o permite regular perfeitamente os momentos de quebra de tensão e resulta em reações hilárias e totalmente naturais.

Dentre as atuações, gostaria de destacar a de Betty Gabriel, que vive Georgina, a governanta da casa. A cena mais assustadora do filme depende quase que exclusivamente de sua performance e a atriz não decepciona nem um pouco. A cena é incomoda e sinistra na medida certa.
Chega a ser irônico, mas o aspecto que menos funciona em “Corra! ” é o terror. Por mais que o filme construa um suspense de forma eficaz, há uma certa artificialidade que prejudica algumas cenas. Seja no uso da trilha sonora, ou de momentos que fogem da naturalidade estabelecida pelo próprio universo do filme, não dá para não notar que algumas coisas foram acrescentadas só para nos assustar, o que tira um pouco da credibilidade e da honestidade do susto.

De um modo geral, “Corra! ” acerta em suas três características: O terror que vem do seu gênero, o humor que vem do seu diretor e a relevância que vem de seu discurso. A última é definitivamente a mais marcante. Jordan Peele não poupou ninguém e fez um filme corajoso e empoderador que escancara todo o racismo enraizado na sociedade. Mais do que um ótimo filme de terror, “Corra! ” é um espelho incômodo e altamente elucidativo.

Assista ao trailer de ‘Corra!’:

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Pedro C. Pardim
Pedro C. Pardim

Graças aos meus pais estou em contato com a cultura e artes em geral desde muito cedo, mas a minha paixão é pelo cinema. Sempre foi. Não só paixão, escolhi (e espero) ter o cinema como minha profissão.

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