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Piratas do Caribe | Cine-Remix: Piratas do Caribe e a Maldição do Eterno Retorno

por Henrique Balbi comentários

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Créditos da imagem: Keryma Lourenço

Jack Sparrow acordou desorientado, com uma faca cravada no ventre e a roupa ensopada de rum. O sol invadia o cômodo, ele se sentia enjoado – talvez pelo balanço do navio? Abriu uma porta e descobriu-se no interior de um bar em Tortuga: uma multidão de piratas caolhos, mancos, cômicos ou corajosos o encarava, à espera de instruções. Jack ergueu uma mão, como se saudasse alguém, deu um sorriso leve, que se converteu em seriedade e então deixou emergir a dúvida no rosto: não sabia nem se estava de fato vivo, se era um delírio prolongado, se estavam no início, no fim ou no meio de uma aventura nova, ou velha, não duvidava de nada. Alguém gritou:

– E agora, capitão?

– Agora, a gente… é… – procurou com o olhar alguém conhecido naquele elenco de desajustados que se chamava tripulação. Nenhum. Ouviu alguém murmurar algo sobre um tesouro. Um gancho! – Muito bom, mate, ao tesouro! – E saiu cambaleando.

Jack Sparrow acordou confuso. Sentia a testa dolorida, pesada, como se o tivessem estapeado com um remo. A roupa ensopada, dessa vez de água comum. Mesmo? Cheirou: sim, água comum. Salgada. O sol invadia o cômodo, ele ainda estava enjoado – percebeu, porém, o balanço do navio, e, ao sair para o convés, confirmou que estavam navegando. Havia uma confusão: tiros, gritos, pequenas nuvens de pólvora e grandes pedaços de corda; pelo jeito, amarravam alguém ao mastro. Um bando de mercenários, lhe pareceu, cortava a garganta de um pirata caolho e cômico a estibordo: Jack não sabia se ele devia comemorar isso ou não, de que lado estava ele, de quem? Alguém urrou, antes de ser apunhalado pelas costas:

– E agora, capitão?
Jack ergueu uma mão, falaria algo a respeito do tesouro, mas não sabia se aquela aventura já havia terminado, ou se era a mesma. Talvez os mercenários estivessem tentando roubá-lo, mas talvez não, talvez eles fossem roubar dos mercenários, ou ambos os grupos o haviam roubado de alguém e a disputa fosse por isso.

– Agora, a gente… é… Quem é a gente mesmo?

E saiu cambaleando, com a impressão de que estava esquecendo de algo. Alguma história sobre um naufrágio misterioso, navegantes gregos, algo assim…

Jack Sparrow acordou assustado. Tentou mexer a mão, mas não pôde: alguém a tinha atravessado com um punhal – isso o acordou, agora entendia. A roupa seca, mas sentia o rosto lavado, fresco: desejou intensamente que fosse de água. Estava sentado numa mesa, pouco além do alcance de seu braço livre havia uma garrafa de rum. Ele se esticou, e nada. Nem chegou a roçar nela. Do lado de fora, silêncio: não havia nem o rumorejar dos clientes de bares, nem o barulho das ondas, chocando-se com o navio. Gritou, chamou nomes de conhecidos, que não sabia se ainda estavam vivos, ou se estavam vivos de novo, ou sei lá, é cada coisa. Abriu-se a porta; Jack Sparrow sorriu, depois ficou sério – queria sair correndo dali.

Entrou uma mulher, que Jack não reconheceu. Seguindo-a, um grupo de marujos, talvez da tripulação dele, Jack não os diferenciava havia décadas: caolhos, mancos, cômicos ou corajosos, o escorbuto estampado na boca e a pele enrugada das horas de sol. Aguardavam a ação da mulher, que não parecia amigável, mas também não de todo hostil. Opinião de Jack que logo mudou quando ela cravou na outra mão dele outro punhal. Um dos marujos choramingou:

– E agora, capitão?

A dor só não era mais intensa que a confusão. Eram os mesmos marujos? O que teria acontecido com os primeiros, com os mercenários, com o tesouro e com o naufrágio misterioso? Quem era essa mulher, uma feiticeira, uma capitã? Era conhecida ou não? Jack Sparrow não sabia nem por onde começar a deduzir. No fundo de sua cabeça, alguma coisa tentava vir à tona Algo sobre uma lenda de piratas, um monstro marinho, ou um fantasma? Impossível saber. Ele sentia um enjoo diferente e pensou que era uma boa hora para apagar de novo – se possível sem acordar.

Jack Sparrow acordou, decepcionado.

Studio na Colab55
Henrique Balbi
Henrique Balbi

Viu filmes demais e deu nisso: acha que eles fazem pensar, mudam o mundo, comovem e divertem. Agora escreve sobre cinema até não poder, sem pudor de misturá-los no Cine-Remix. Onde já se viu.

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