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Multitela: Por que a gente vê Sense8, mesmo sendo ruim?

por Vito Antiquera comentários
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Há mais de um jeito de apreciar séries mas, no final, elas são única e exclusivamente puro entretenimento. Alguns (como eu) buscam e encaram como obras de arte, mas não deixam de ver aquelas que só estão ali para preencher lacunas e tempo enquanto passamos a roupa ou lavamos a louça. Também há aquela série que todo mundo venera, enlouquece quando sai a temporada, mas não necessariamente é boa. Tem apelo, mas não é boa. Sim, meus amigos: estou falando mal de Sense8 – mas calma, que não estou falando pra vocês não assistirem. Pelo contrário.

Pra quem não viu nada, não vale a pena dizer muito. Sense8 é uma série criada e produzida (por vezes, escrita e até dirigida) pelas irmãs Wachowski, que já entregaram coisas muito melhores, como Matrix. Sense8 é uma alegoria (muito mal feita, por sinal) sobre humanismo sem fronteiras, generalização da empatia, respeito às diferenças – algo que X-Men, por exemplo, faz muito melhor.

E por que tanto apelo? Pela universalidade dos temas e variedade dos chamados oito atores principais (negros, mulheres, gays, transexuais, etc.), basicamente – mesmo considerando que toda a estrutura é feita para disfarçar as irregularidades de uma história fraca. Tudo é recortado por montagem que lembra qualquer clipe ou vídeo de youtuber, um prato cheio pra uma geração pós-MTV. Uma edição que apela o tempo todo para a câmera lenta, além de remixes e pout-pourri de músicas do passado cantadas ou ouvidas por personagens aéreos em momentos tristes ou com tesão. É cafonice disfarçada de profundidade, porque em meio a tudo isso há sempre – de maneira falsamente profunda e despretensiosa – uma frase de efeito jogada aleatoriamente por algum personagem, ou mesmo algum comparativo histórico, para que ao final da cena ou do episódio aprendamos uma “grande lição”.

Mas, então, por que isso dá certo? Por todos os motivos anteriormente citados, e mais algumas coisinhas. Somos, em geral, de uma geração quase que pós-religião; mesmo que não muito crentes, os adolescentes e os jovens adultos de hoje também precisam de uma explicação científica pra poder justificar empatia. Mesmo assim, a ideia do “sensorial” continua parecendo teologia, e não ciência – e a trama fica ainda mais frágil e desnecessária. Pior de tudo é tentar achar um sentido pro sexo que seja metafísico e não somente alguma necessidade básica – fazendo isso através de relações sexuais pudicas e dignas de Cine Privé disfarçadas de conexão profunda; suruba por si só não quebra tabus, ainda mais mostrando somente a bunda de homens gostosos e com corpos padrão, além de mulheres também magras e por vezes excessivamente esbeltas.

Além disso, há diversos exemplos que podem ser dados sobre besteiradas sem necessidade da história. Quem, em sã consciência e enquanto assiste a um filme na sala com amigos, conversa cochichando sobre a pessoa que está ao lado? Ah, e tem mais: em uma pool party mega clichê de Los Angeles, ninguém menos que Marc Jacobs (?) tira toda a roupa da personagem e a veste com um figurino pegando peças das pessoas que estão na festa para provar um ponto de que é um ótimo figurinista. Sério mesmo?

Entre tudo de ruim que que há em Sense8, salvam-se algumas (poucas) algumas coisas boas. Uma delas é a personagem de Sun (Doona Bae), uma sul-coreana que vê sua vida desmoronar quando perde o pai e o irmão. É a premissa mais interessante – acompanhada da intérprete mais madura, talvez. No entanto, em um esforço de estender a história, esse melhor plot da temporada foi sendo “cozinhado” até o episódio final de maneira vergonhosa, desafiando completamente todos os limites da nossa capacidade de aceitar qualquer falta de verossimilhança, mesmo quando em nome de uma diversão descompromissada.

Em suma, Sense8 poderia ser definido como algo grandioso e caro, cheio de gente filmando em milhares de locações pelo mundo. É barulhento, a trilha sonora reverbera o tempo todo para não prejudicar a edição de videoclipe, e tudo é pretensioso demais na maioria do tempo. Mas porque podemos e devemos assistir? Tem representatividade étnica, sexual e de gênero: atores diversos em personagens diferentes entre si. E, com a linguagem de edição que tem, se sustenta facilmente como um passatempo para viagens de idas e vindas do/para o trabalho. Não precisa de atenção, e às vezes até demanda desatenção para poder deixar passar tanta besteira e falta de sustança de roteiro. Vai te render risadas em momentos dramáticos, e tristeza em situações cômicas que quase nunca funcionam.

Ao final, percebemos que a história pouco se desenrolou em dois anos. Na primeira temporada, ainda tínhamos o frescor de introdução a um mundo novo, com uma história e personagens tão diferentes entre si e conectados por algo ainda inexplorado. Nesse novo ano, acompanhamos uma perseguição repetitiva bem feijão-com-arroz, que nem tem muita pirotecnia pra poder distrair nosso lado mais pobre do intelecto. Isso confirma a ideia de que, mesmo sendo uma boa pedida para assistir despretensiosamente na tela do seu celular ou como atividade secundaria, Sense8 é ruim, e não é pouco.

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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