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cine clássicos: O verdadeiro RuPaul’s Drag Race

por Will Poliveri comentários
paris is burning

Oi, saladinos! Há 8 anos e 9 temporadas, gays do mundo inteiro ganharam uma Copa do Mundo para chamar de sua: o reality show RuPaul’s Drag Race. Se você nunca viu, merece a olhada! Competição que testa os talentos de drag queens, o programa de TV cresceu tanto em relevância e popularidade que seu criador RuPaul recebeu, no ano passado, o Emmy de melhor apresentador de reality show da TV americana. Uma conquista e tanto para um programa que, apesar de duradouro, era exibido por um pequeno canal a cabo.

RuPaul nunca escondeu que uma das inspirações para a produção veio de Paris Is Burning, documentário clássico sobre a cultura LGBT. E se você assistir ao doc, vai perceber que ele é mais do que uma inspiração: é o reality show em si.

CATEGORY IS…

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Paris is Burning foi lançado em 1990 e mostra a cena LGBT em Nova York na metade dos anos 80. Mais especificamente, é um registro sobre os ballrooms, festas nas quais negros e latinos competiam entre si em categorias como a drag mais elegante, a mais bela e a que dançava melhor. Havia troféus até para quem “disfarçava” melhor sua homossexualidade, fosse aquele gay “discreto e fora do meio” que passava facilmente por homem heterossexual ou aquela travesti tão feminina que ninguém sacava sua identidade de gênero.

Além da competição, eram nos balls que a comunidade LGBT tinha, de fato, um espaço de socialização. Em um período no qual a discriminação era ainda mais forte, essas casas noturnas criavam raros locais para gays, lésbicas e transexuais interagirem entre si. Além disso, eram também uma forte ferramenta de empoderamento, já que várias categorias incentivavam homossexuais, negros e latinos a criticarem as imposições sociais de gênero e etnia.

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No documentário, a diretora Jennie Livingston caminha em duas frentes interessantes: ao mesmo tempo em que acompanha a vida de vários frequentadores, ela também cria um verdadeiro glossário para entender essa cultura underground, sendo bastante didática sobre as gírias e o funcionamento dos balls. E é justamente aqui que fica fácil perceber de onde RuPaul retirou os elementos essenciais de RuPaul’s Drag Race.

SHANTAY, YOU STAY

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Quem assiste ao reality show, sabe na ponta da língua pelo menos meia dúzia de palavras-chaves vindas de Paris Is Burning. Se a drag queen tem que usar uma roupa sofisticada, ela precisa demonstrar extravaganza. Se ela consegue se montar tão bem que passaria facilmente por uma mulher, a drag tem realness. E se uma das competidoras faz um comentário ácido sobre as outras, ela lançou um shade.

Além disso, o programa é estruturado com várias referências ao documentário. Os maiores desafios, quando as drag queens precisam criar figurinos temáticos, são chamados de balls. Em cada episódio, RuPaul abre os desfiles na passarela com um sonoro “the category is…”, que remete ao jeito como os apresentadores dos ballrooms apresentavam as competidoras. E isso sem falar no desafio de reading, quando as drags precisam zoar umas às outras “na melhor tradição de Paris Is Burning”.

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É óbvio que RuPaul não plagiou o documentário para criar o reality show. Afinal, o apresentador é contemporâneo dos balls e viveu intensamente esta cultura nos anos 80. Assim, sua função na TV é muito mais levar para a geração atual um dos pilares essenciais da cultura LGBT americana, mantendo viva a tradição. E mais: mostra que a arte drag é resultado de um processo histórico cujos antecedentes precisam compreendidos e respeitados.

É graças a esta importância que Paris Is Burning continua sendo, até hoje, um dos registros mais ricos sobre a comunidade gay. Pois além de mostrar a diversidade por trás dessas drags extravagantes, ele nos lembra que a cultura LGBT é muito mais do que apenas entretenimento: ela é sinônimo de resistência e autoafirmação. E só por isso já vale a pena dar uma conferida!

P.S.: tanto RuPaul’s Drag Race quanto Paris Is Burning estão disponíveis para assistir na Netflix. Então é só programar sua maratona!

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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