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cine clássicos: duas Belas, duas Feras e uma lição sobre HIV

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Com a estreia da nova versão de A Bela e Fera, a história da moça humilde toca o coração de um animal feroz volta às conversas dos cinéfilos. Um efeito que, diga-se de passagem, não é a primeira vez que este conto consegue produzir. Ao menos duas outras vezes, em 1946 e 1991, as opiniões também ficaram concentradas ao redor destes filmes!

O mais curioso é perceber como estas duas adaptações, mesmo separadas por quase 50 anos, conseguem dialogar entre si. Quer ver só?

SONHO OU PESADELO?

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Quem está acostumado com a versão da Disney, com certeza vai estranhar o roteiro criado pelo cineasta Jean Cocteau em 1946. Começando pela constituição familiar de Bela, que é muito mais fiel ao livro escrito por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. Primeiro porque o pai da mocinha é um comerciante à beira da falência. Depois, porque Bela tem duas irmãs egoístas e um irmão endividado. E, por último, porque a caçula é tão explorada pelos irmãos que mais parece a Cinderela.

As diferenças também continuam no drama. Ao voltar de uma viagem, o pai de Bela se perde na floresta e encontra refúgio em um castelo abandonado. No dia seguinte, antes de ir embora, ele colhe uma rosa do jardim para levar para Bela, mas é flagrado pela Fera, que o condena à morte. Sua única salvação é convencer uma de suas filhas a se mudar para o castelo. O homem aceita a morte e volta para casa para se despedir da família. Mas antes que ele retorne ao castelo, Bela foge de madrugada e se entrega à Fera, pois se sente culpada pelo destino do pai.

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Cocteau tem tanta noção de que a história será questionada pelo público que, logo no começo, faz um apelo aos espectadores. Com uma mensagem escrita na tela, ele pede que as pessoas vejam o filme com os olhos de uma criança, que se deixem levar pela fantasia. Um pedido que afrouxa as fronteiras da verossimilhança e ainda quebra a resistência às ousadas escolhas visuais do longa.

Nenhuma delas é tão poderosa quanto o castelo. Esqueça xícaras e bules dançantes! Aqui, a vida é sombria, quase um pesadelo. São portas que falam e se abrem sozinhas, estátuas que se mexem e paredes com braços segurando candelabros. São soluções criativas de um poder visual tão intenso que hipnotizam a cada vez que aparecem! Não à toa, 70 anos depois, muitos críticos ainda elegem o filme como um dos melhores do cinema.

SENTIMENTOS SÃO…

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Apesar de só ganhar as telas em 1991, há décadas A Bela e a Fera estava nos planos da Disney. Depois do sucesso de Branca de Neve e os Sete Anões, em 1937, Walt Disney começou a buscar outras histórias que pudessem se tornar animações. Mas os planos de adaptar o conto foram engavetados depois do filme de Jean Cocteau, que acabou com o ineditismo da história. Assim, A Bela e a Fera só entrou de fato em produção após A Pequena Sereia ressuscitar os desenhos do estúdio em 1989.

Apesar de também se basear no conto de Beaumont, muitas ideias da animação vêm do filme de 1946. Gaston, o vilão obcecado em casar com Bela, é uma releitura de Avenant, antagonista que Cocteau criou e que não existe no livro. Até mesmo os móveis, xícaras e candelabros falantes são uma versão mais pomposa do castelo sombrio do filme francês, uma inspiração que a Disney nunca escondeu.

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Primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, A Bela e a Fera é, ainda hoje, um dos longas mais populares da Disney. E, mesmo assim, ainda esconde segredos que trazem novas dimensões a seu roteiro. O mais recente destes significados, por exemplo, só veio à tona agora. Bill Condon, o diretor do novo filme, contou à revista britânica Attitude que a animação é uma grande metáfora sobre a epidemia de Aids dos anos 1990. Tudo graças a uma pessoa: Howard Ashman.

Howard era o produtor-executivo do longa e um dos principais compositores da Disney – são dele as músicas de A Pequena Sereia, A Bela e a Fera e Aladdin. Soropositivo, foi ele quem deu à animação a cara que conhecemos: até colocar suas mãos no projeto, a história girava apenas ao redor de Bela. Partiu de Ashman a decisão de aumentar o papel da Fera, tornando-o um coprotagonista da história e, implicitamente, usando o arco dramático do monstro para simbolizar sua luta pessoal contra o HIV.

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Assim como o feitiço que condena a Fera a se isolar no castelo, receber o diagnóstico de HIV nos anos 1990 era semelhante a uma maldição. Dela, surgiam o medo, a tristeza, o isolamento, o sentimento de rejeição e a esperança de encontrar um amor que não olhasse apenas para a doença, mas sim para todas as qualidades que o soropositivo tinha a oferecer. E se a rosa vermelha marca o prazo que a Fera tem para se libertar, para Howard era um lembrete de que seu tempo estava acabando e de que a cura da Aids precisava chegar urgentemente. Até a Canção da Multidão, na qual o vilarejo se une para matar a Fera, foi composta para representar todo o preconceito que os soropositivos sofriam, já que a sociedade julgava que os infectados pelo vírus tinham mesmo que morrer.

Infelizmente, Howard faleceu meses antes de o filme estrear, não chegou a ver o trabalho finalizado e não recebeu os prêmios que ganhou – a maioria deles justamente para as músicas que ele compôs. Mas A Bela e a Fera se tornou seu epitáfio e uma mensagem permanente de empatia e acolhimento. Um pedido importante mesmo nos dias de hoje, quando o tratamento do HIV já evoluiu a ponto de a doença não ser uma sentença de morte, mas os soropositivos ainda sofrem com o pesado estigma social.

Então eu te convido a rever o filme com estes olhos. Afinal, sentimentos são fáceis de mudar. Já preconceitos…

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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