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Entrevista: Paula Gomes, diretora de ‘Jonas e o Circo Sem Lona’

por Diego Olivares comentários
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“Jonas e o Circo Sem Lona”, documentário em cartaz nos cinemas, conhecemos um dos personagens mais carismáticos do cinema brasileiro nos últimos anos. Trata-se do menino Jonas, de 13 anos, que com dedicação impressionante mantém viva a grande tradição de sua família, o circo.

Dos espólios de lonas e figurinos velhos, pedaços de arquibancada e um trapézio desgastado, ele montou um novo picadeiro no quintal de casa. Essa alma de artista encantou a cineasta baiana Paula Gomes, que escolheu a história do garoto para fazer seu primeiro documentário em longa-metragem.

A obra não esconde seu envolvimento emocional. Jonas e Paula trocam confidências através da câmera, e ela passa a ser parte fundamental na dinâmica da família, conturbada pela divisão entre a vontade de Jonas em seguir a vida como membro da trupe circense coordenada pelo tio e as preocupações de sua mãe, que gostaria de ver o menino mais dedicado aos estudos.

Depois de rodar por festivais internacionais e brasileiros, o filme chega ao circuito comercial. Na semana de lançamento, a diretora conversou por e-mail com o Salada de Cinema. Leia a entrevista abaixo:

Como você tomou conhecimento da história de Jonas e surgiu a vontade de fazer um documentário?
Em 2006, nós estávamos preparando um curta, “Noite de Marionetes”, que também tinha o universo do circo como pano de fundo. E depois de tanta gente vir nos perguntar se nosso filme seria ao estilo “felliniano”, descobrimos que existia no imaginário de todos uma caricatura do circo, construída no cinema, que tinha se tornado um lugar comum.

Então, tentando encontrar um caminho que nos levasse a um olhar mais fresco do circo nordestino contemporâneo, partimos em busca de um circo de verdade. A ideia era visitar três circos num fim de semana, perto de Salvador. Mas o que encontramos foi tão fascinante, que acabamos visitando 35 circos no interior da Bahia. Foi nessa viagem, em um desses circos, que eu conheci a família de Jonas. Eles já estavam planejando se estabelecer na cidade. Desde essa época, fiquei amiga da mãe dele, da família. Jonas era pequeno ainda, mas ele nunca se adaptou à vida fora do circo.

Alguns anos mais tarde, recebi um telefonema dele, me chamando para assistir um espetáculo do circo que ele mesmo tinha criado no quintal de sua casa. Quando cheguei lá, fiquei encantada pela forma como aquele menino conseguiu dar a volta por cima e manter vivo o seu sonho. Ele tinha montado seu próprio circo, um circo de verdade, com o que tinha sobrado do antigo circo de sua família: pedaços de arquibancadas, lonas velhas, o trapézio. Tinha ensinado os meninos da vizinhança a serem artistas também. Na mesma hora, senti que tinha uma história potente ali, tinha um filme naquele quintal.

O próprio filme, e você como sua diretora, se tornam personagens da narrativa, seja nos momentos em que Jonas confessa o medo que não esteja à altura do documentário, ou na cena em que você é chamada por uma das professoras dele e leva uma “bronca”, por exemplo. Como foi este envolvimento, no sentido de entender o limite de interferência na história que você gostaria de ter?

O envolvimento foi total. Eu não acredito muito no documentário que vende uma proposta de não-interferência, de documentário “puro”, porque filmar pressupõe interferir – na rotina, nas expectativas, nas relações – e isso de fato não me parece errado, desde que seja parte do pacto que se estabelece entre quem filma e quem é filmado. Acho mais sincero, e filmicamente mais interessante também, assumir que aquela equipe está ali, que aquele diretor está ali, e que sua presença está interferindo naquela realidade, sim.

O filme só existe porque antes do filme existiu um encontro. Por que realizador e personagem, sujeito e objeto, toparam viver aquela aventura juntos, naquele espaço, naquele tempo. E o resultado disso não é uma verdade absoluta, é só um olhar, uma forma pessoal de contar aquela história, entre outras tantas possíveis.

Ainda sobre esta preocupação de Jonas com o resultado final. O que ele te disse quando, afinal, viu o filme pronto?

Nós passamos mais de dois anos filmando. Então quando Jonas assistiu ao filme pronto, não era mais o mesmo menino que começamos a filmar. Ele ficou feliz com o resultado e muito emocionado quando viu sua infância na tela, desde esse novo ponto de vista, de um jovem adulto.

Ele tem recebido sempre muito carinho do público. Ele esteve com a gente na world première no IDFA – International Documentary Film Festival Amsterdam, na estreia nacional no Festival É Tudo Verdade, e agora vai acompanhar o lançamento comercial também, em sessões em Salvador e São Paulo.

Numa das suas conversas com ele que está no filme, você compara o “fazer” cinema com o “fazer” circo. Quais aspectos em comum entre estes dois ambientes artísticos mais te chamam a atenção?

Na verdade, o que eu comparo no filme é a minha forma de fazer cinema, com a forma dele de fazer circo. Porque temos nossas pequenas trupes e grandes obstáculos para conseguir fazendo o que gostamos. E a forma como ele, com 13 anos, luta e consegue, com tão pouco, manter vivo seu sonho no quintal de casa, é muito inspiradora para mim. Durante a filmagem, nossas histórias se cruzavam tanto, que já nem sabia mais, se ele era um personagem do nosso filme, ou se nós éramos os artistas do circo dele.

O circo parece ter visto sua popularidade despencar, sendo cada vez mais raro e lutando para atrair o público. O futuro do cinema corre o risco de ser o mesmo?

Aqui no Nordeste o circo tá super vivo, enfrentando muitas dificuldades, porém com um potencial incrível de chegar a pequenas cidades onde não chegam o teatro, as artes plásticas, o próprio cinema, por exemplo. E o cinema, por outro lado, acho que tá vivendo um dos seus melhores momentos, com tecnologias que o deixam mais acessível, e com novas janelas que apontam um futuro promissor.

O filme também faz uma homenagem à infância, um lugar para o qual a gente eventualmente volta ao longo da vida, como diz o letreiro final. Quais características da Paula Gomes criança ainda permanecem hoje na Paula Gomes cineasta?

Acho que são muitas. Quando eu era pequena, do lado da minha casa, tinha um terreno onde armavam circos, bem pequenos, mambembes. Quando tinha um circo lá, minha rotina se transformava. Eu ia toda noite para os espetáculos. De dia, ficava espiando da janela o cotidiano dos artistas. Até que um dia o circo ia embora. E o terreno ficava vazio de novo.

Eu acho que minha escolha pelo cinema tem muito a ver com aqueles dias, lá da infância, em que eu confrontava o terreno vazio. Porque eu sempre quis ser a parte que vai com o circo, que aceita o chamado da aventura. Essa vontade, que nasceu da menina que eu fui, ainda está aqui, muito forte em mim.

É impossível não sair do filme e se perguntar como Jonas está hoje, se continua com o circo, se foi, afinal, morar com o tio… O que você pode nos contar sobre isso?

Quando acabou o filme, a mãe de Jonas deixou ele ir pro circo. Mas ele não quis mais ir (risos). Estava completamente apaixonado pela ideia de fazer cinema. Agora, ele tá finalmente terminando o último ano da escola e também já trabalhou em um novo projeto com a gente, o longa de ficção “Filho de Boi”.

Nesse projeto, além de ator, ele começou a aprender uma nova função, a de assistente de câmera. Ele também se apresenta ainda como palhaço, quando visita o circo do dia nas férias ou fim de semana. O circo do quintal não acabou, continua vivo, dentro dele.

Assista ao trailer de ‘Jonas e o Circo Sem Lona’:

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Diego Olivares
Diego Olivares

Diego Olivares é pós-graduado em jornalismo, mas aprendeu tudo que importa dentro de uma sala de cinema.

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