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A Bela e a Fera

por Thiago Nolla comentários

A partir do início da década de 2010, a onda de remakes atingiu o seu pico, principalmente nos estúdios Disney. Nos últimos anos, podemos citar dentre algumas releituras feitas de clássicos eternizados no século passado, Malévola – oferecendo uma perspectiva não tão bem estruturada do conto A Bela Adormecida -, Mogli, o Menino Lobo – que tornou-se um grande sucesso de bilheteria e de crítica – e agora A Bela e a Fera, protagonizada por Emma Watson e Dan Stevens do clássico de 1991.

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A história permanece a mesma: uma jovem garota, moradora de um vilarejo saído diretamente de contos de fada cuja vida muda completamente ao ser arrastada ao microcosmos de um Castelo encantado onde toda a mobília é antropomorfizada. Ambos os protagonistas emprestam o nome para o título, e suas personalidades totalmente destoantes contribuem para a reafirmação da seguinte premissa: “os opostos se atraem”.

Quando as primeiras notícias sobre a adaptação em live-action começaram a ser divulgadas, não pude deixar de ficar com um pé atrás. Afinal, pessoalmente, A Bela e a Fera é uma de minhas animações favoritas, e uma rendição equivocada ou que não fizesse jus à atemporalidade técnica e construtiva da animação poderia não ser tão bem aceita pelo público e indicar uma certa decadência da própria companhia. Mas com os erros de Malévola, cuja narrativa cheia de furos trouxe um estranhamento exacerbado, o império das obras animadas parece ter acertado – apesar de não ter sido do modo como queríamos.

Dirigido por Bill Condon (A Saga Crepúsculo: Amanhecer), a trama principal segue fielmente sua predecessora, além de adicionar pontos-chave que apenas acrescentam algumas camadas à história. Nada é desperdiçado, mas isso não quer dizer que o cineasta opta pela sutileza – e esse talvez seja o maior deslize da obra: ela tenta ser superior ao seu material original, e a pretensão é tamanha que acaba caindo nos clichês do gênero e na impossibilidade narrativa – mesmo que seja ambientado em um universo mágico e tomado pelo misticismo.

Alguns cortes, por exemplo, são muito bruscos e refutam a ideia da suavidade e da flutuação emergida com a própria figura de Bela, um personagem tão à frente de seu tempo que se mostra pronta para abandonar suas raízes camponesas para expandir a sua compreensão sobre a vida e sobre aquilo que lhe aguarda. Watson consegue encarnar de forma coerente a heroína da história, ainda que traga alguns trejeitos de sua interpretação como Hermione em Harry Potter. Seu charme por vezes ofusca os outros personagens e a beleza arquitetônica da vila em que mora – não que isso tire algum mérito de sua performance, mas a busca pelo equilíbrio poderia ser feita de forma mais coercitiva e aprofundada.

O roteiro assinado por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos tem seus momentos de glória, principalmente ao conseguir unir pontas soltas e resgatar os maniqueísmos entre o bem e o mal. Entretanto, a principal característica – a clara diferença que se firma entre a massa amorfa dos camponeses (os estereótipos) e a personalidade aventureira de Bela (o arquétipo). Todos são carregados de valores distintos que deixam o filme saturado – e combinado com a correria do primeiro ato, não podemos deixar de respirar de alívio quando o clímax inicial ocorre e a próxima sequência se desenrola.

Kevin Kline dá vida a uma versão mais humanizada e menos caricata de Maurice, pai de Bela. Sua serenidade em cena e seus pouquíssimos momentos de autocontemplação são interessantes e casam com a atmosfera das sequências em questão, harmonizando com o constante autoquestionamento da protagonista sobre seu lugar na sociedade em que vive. Claro, as metáforas permanecem na superfície, pois o foco reside na nostalgia e na relação empática com o público – as diferenças artísticas são bem explícitas quando comparamos a animação e o live-action -, mas ainda sim funcionam.
Os personagens coadjuvantes do Castelo também realizam suas funções com uma maestria quase completa, principalmente no tocante à química. Alguns ficam apagados quando falamos de momentos específicos, como Madame Garderobe (Audra McDonald) e Monsieur Cadenza (Stanley Tucci), cuja trama não é tão memorável, mas adiciona momentos de tensão para o filme. Enquanto isso, Lumière (Ewan McGregor), Cogsworth (Ian McKellen), Mrs. Potts (Emma Thompson), Plumette (Gugu Mbatha-Raw) mantém a química espetacular já existente no primeiro filme, entregando o que sabem fazer de melhor – construções arquetípicas, humorísticas e dramáticas muito bem balanceadas e que nos relembram das interpretações originais.

As músicas não deixam a desejar: Thompson possui praticamente o mesmo timbre e a mesma nuance vocal de Angela Lansbury, conferindo credibilidade e um grande apego por parte do público, bem como uma rendição digna de uma obra realizada por Alan Menken (em parceria com o falecido Howard Ashman). As novas canções são coesas e também se relacionam diretamente com a história, apesar de serem mediocramente coreografas – o ensaio exacerbado e a busca pela perfeição transformam as sequências de dança (incluindo a de Beauty and the Beast) numa ária grega defeituosa.
Como já citado várias vezes, o exagero é constante – e mesmo assim não entra como nenhum recurso estilístico realmente importante. Os efeitos especiais, sempre presentes nas obras de Condon, não tem um acabamento próprio dos blockbusters – e tenho que dizer que alguns visuais chegam a causar uma leve repulsa, seja pelo 3D ou pelo desjeito em cena. Entretanto, não se pode tirar o mérito da equipe criativa em afastar-se da imponência expressionista do desenho e conferir um toque próprio com referências à ópera La Belle et la Bête.

É inegável que o cineasta sabe como trabalhar com cenas de drama. A partir do terceiro ato, onde os camponeses do vilarejo, comandados por Gaston (uma interpretação muito convincente e competente de Luke Evans), se voltam contra a Fera e contra a “maldade” que ele supostamente representa para o conservadorismo exacerbado desta massa reacionária. A partir daí, a própria paleta de cores opta por tons mais frios e neutros que transmitam uma sobriedade mórbida, indicando o fim do ciclo narrativo. E diferente da animação, que é voltada para o público mais infantil, o desfecho dos coadjuvantes encontra uma voz mais densa e dramática capaz de arrancar lágrimas até dos mais céticos.

A Bela e a Fera é um filme competente, mas pontuado com falhas visíveis e pretensiosas. Não há comparação com a obra cinematográfica original, mas sua homenagem é clara e sua nostalgia toca nos corações dos fãs que cresceram na Era de Ouro da Disney. Com os erros e acertos, podemos esperar que as próximas adaptações em live-action consigam acreditar em todo seu potencial – e resgatar uma época extremamente majestosa.

Studio na Colab55
Thiago Nolla
Thiago Nolla

Fã de carteirinha de Aronofsky e Burton, sempre tem um tempo pra ver um filme de animação. Ou intimista. Ou os dois. Também sonha em poder atuar com suas grandes inspirações – Viola Davis e Eva Green.

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