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Silêncio

por Pedro C. Pardim comentários
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É com um silêncio ensurdecedor que Scorsese abre seu novo filme. O título, que é abordado literalmente tanto na sua concepção de linguagem – a trilha sonora do filme é composta exclusivamente por som ambiente – quanto no enredo e na construção de seu protagonista, que tem na falta de respostas a principal hesitação de sua fé, é certeiro ao traduzir perfeitamente a obra e permite que a ausência dele, o “Silêncio”, seja ainda mais significativa.

Baseado no livro homônimo de Shusaku Endo, “Silêncio” acompanha a jornada de Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield), um padre jesuíta português que, acompanhado de Francisco Garupe (Adam Driver), busca descobrir o paradeiro de seu mentor, Cristovão Ferreira (Liam Neeson), num Japão do século XVII, onde o cristianismo era proibido.

Como uma forma de reverência à Era dourada do cinema japonês, a direção de Scorsese é extremamente clássica. Com a ajuda da direção de fotografia de Rodrigo Prieto, o americano enaltece a imponência do ambiente, através de belíssimos planos abertos, e destaca a intimidade e o sofrimento de seu protagonista com planos detalhes e movimentos de câmera sutis.

As atuações são impressionantes. O elenco oriental está excelente, com destaque para Tadanobu Asano, que vive um intérprete, e Issei Ogata, que dá vida ao Inquisidor, principal antagonista da trama. No elenco ocidental, Adam Driver e Liam Neeson são precisos e aproveitam o máximo do pouco tempo de tela que possuem, mas sem a atuação de Andrew Garfield o filme não funcionaria. A atuação do britânico é, ao mesmo tempo, complexa e intimista. Acredito que o ator tenha sido indicado ao Oscar pelo filme errado.

Por mais que seja tematicamente religioso, “Silêncio” está longe de ser doutrinador. O filme é do ponto de vista de um jesuíta, portanto a representação de outros personagens, principalmente os japoneses, dependem de sua relação com o protagonista. Essa relação de perspectiva fica ainda mais clara na concepção divina do filme. Os momentos de devoção e de dúvida de Sebastião são palpáveis durante a trama, há, inclusive, um momento em que o padre vê em seu reflexo a face de cristo. E essa não é a primeira vez que Scorsese usa a subjetividade de seu protagonista como ferramenta narrativa para seus filmes: é possível considerar que a fé está para Sebastião, de forma mais sútil, como o excesso estava para Jordan Belfort, em “O lobo de Wall Street”.

Há somente um adendo. Por mais que seja compreensível mostrar personagens portugueses falando em inglês por questão de mercado, ouvir “I speak portuguese” é no mínimo incômodo.

Martin Scorsese talvez seja o diretor americano mais importante e influente ainda ativo. Com 74 anos de idade e mais de 40 de carreira, o Nova iorquino construiu uma cinegrafia invejável e um estilo próprio e energético de fazer cinema. Mas “Silêncio” foge de suas características. Trata-se de um filme íntimo, focado em passar todas as angústias, dúvidas e torturas de seu protagonista. Não só passar, com quase 3 horas de duração, o longa não poupa o público de nada, fazendo-o vivenciar seus sofrimentos. É um filme conscientemente difícil de se assistir, mas é uma experiência valiosa.

Assista ao trailer de ‘Silêncio’:

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Pedro C. Pardim
Pedro C. Pardim

Graças aos meus pais estou em contato com a cultura e artes em geral desde muito cedo, mas a minha paixão é pelo cinema. Sempre foi. Não só paixão, escolhi (e espero) ter o cinema como minha profissão.

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