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Multitela: OJ Made in America – Porque uma série pode ganhar o Oscar de Melhor Documentário?

por Vito Antiquera comentários
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Aqui no MultiTela não temos nenhum tipo de preconceito com definições e obras que ultrapassam seu gênero; pelo contrário, sempre procuramos mostrar por aqui todo tipo de conteúdo de entretenimento que tem cara, cheiro e gosto de Cinema – no sentido figurativo da palavra, mesmo que fosse uma minissérie ou série limitada como Fargo, ou uma série com telefilmes em formato de episódios independentes como Sherlock. Cinema é um conceito de arte, sempre em transformação.

Por isso, ver uma série documental como O.J.: Made in America na lista de indicados ao Oscar de Melhor Documentário não é uma surpresa; não é a primeira produção feita fora do mercado cinematográfico a fazer parte da lista da Academia. Porém é, curiosamente, a primeira série propriamente dita a estar na categoria – e talvez a estar em qualquer uma das categorias em quase 90 anos de premiação, que costuma ter produções de episódio único entre 40 minutos e duas horas de duração.

Mesmo lançada em festivais de cinema, a obra em si tem espírito de série documental, e contém todas as características que empolgam e prendem atenção como Making a Murderer do Netflix. Porém, porque OJ está aqui e Making não poderia estar? Na verdade, poderia sim – mas Making não seguiu as regras de lançamento em salas de cinema exigidas pela Academia. Mas não é só isso – estamos falando de OJ Simpson, uma figura tão execrada quanto emblemática, e também do mais importante julgamento da história dos Estados Unidos.

Dirigido e roteirizado com maestria por Ezra Edelman, o filme de quase 8 horas – ou a série de cinco partes de uma hora e meia, como preferirem – conta a história de OJ de um ponto de vista bem social, uma vez que está sempre (corretamente) preocupada em demonstrar em qual cenário político-econômico e social OJ ascendeu, seja no esporte ou mesmo em outras áreas em que resolveu atuar. Desde o primeiro episódio, temos uma construção narrativa dupla e linear, mostrando como tratavam a comunidade negra e, paralelamente, como OJ era tratado.

Muito acertadamente, essas linhas narrativas se cruzam no chamado “julgamento do século” que derrubou a imagem de bom-moço de OJ, quando ele foi acusado de assassinar (com crueldade) sua ex-mulher, Nicole Brown, e um amigo dela, Ron Goldman. No entanto, Edelman não esconde o mais importante: nesse momento, o já sensível “véu do pacto social” nos Estados Unidos foi totalmente derrubado, dividindo a sociedade explicitamente em dois lados “racialmente” opostos. A comunidade negra defendia OJ independentemente da quantidade de provas contra o acusado, seguindo uma totalmente justificável busca por justiça “ao menos uma vez” para sua tão maltratada identidade racial e social – mesmo sendo essa a mesma comunidade que nunca recebeu apoio nem protagonismo nas batalhas de inserção que OJ poderia ter travado, usando sua representatividade como celebridade. Do outro lado, temos a grande fatia de classe média e alta, além dos colegas e amigos milionários, majoritariamente brancos e antigos apoiadores de OJ, que o abandonaram sem pestanejar quando sua imagem e associação de sucesso financeiro passaram a não mais trazer retorno.

Com esse panorama tão bem estruturado, pode-se dizer que, mesmo sabendo os resultados dessa empreitada jurídica, nunca é enfadonho acompanhar cada um dos minutos dessa jornada épica, seja pela montagem inteligente, alternando imagens de tribunal com entrevistas de pessoas importantes em todo processo (advogados, jurados, etc.), ou mesmo surpreendendo com depoimentos de antigos apoiadores e integrantes da jornada de sucesso do próprio OJ – como seu agente por anos, que detalha conversas com informações que até assustam.

A série demonstra não apenas como a mídia fez uso de todos os elementos da história e até dramatizou alguns pontos para ganhar mais audiência; o irônico é que a o roteiro faz isso exatamente da mesma maneira, colocando o circo midiático como figura central mas também fazendo a mesma coisa, ao expor pequenices da vida pessoal de OJ como fatos essenciais para o desenrolar daquele caso. Tudo meticulosamente e “sensacionalisticamente” estruturado, na melhor das intenções.

Por isso, seja série ou filme, essa grande obra de (e para o) Cinema deve sair do próximo dia 26 com uma estatueta de careca dourada. Além de uma temática muito importante para os americanos, O.J.: Made in America tem algo que não pode faltar em qualquer tipo de obra audiovisual documental: é investigativa, interessante e, acima de tudo, reveladora. Se isso não vale um Oscar de Melhor documentário, não posso imaginar o que mais poderia valer.

P.S: Ryan Murphy, de American Horror Story e Glee, lançou ano passado uma minissérie chamada “American Crime Story: O Povo Contra OJ Simpson”, que dramatiza de maneira tão eletrizante o mesmo julgamento citado acima, e que está disponível desde o começo desse mês no maravilhoso mundo da Netflix. Também fizemos a análise aqui na coluna – vem dar uma lida para ficar com mais vontade ainda de assistir.

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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