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cine clássicos: Cinquenta tons de sexo de verdade

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Em 2015, quem esperava por sexo quando Cinquenta Tons de Cinza estreou, com certeza saiu do cinema frustrado. Se o livro já não passava de uma história de amor safadinha, a versão cinematográfica conseguiu ser ainda mais puritana. Por isso, agora que a continuação chega aos cinemas, que tal trocar Cinquenta Tons Mais Escuros por O Império dos Sentidos, de 1976? Mas venha preparado, porque este clássico do cinema erótico deixa o softporn de Christian Grey e Anastasia parecendo um filme da Disney.

AMOR EXPLÍCITO

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De uma certa forma, O Impérios dos Sentidos tem uma história até parecida com a franquia Cinquenta Tons: é a jornada de empresário que se apaixona por uma garota e começa a explorar com ela os cantos mais sombrios das fantasias sexuais. Mas em vez da Nova York atual, é no Japão dos anos 1930 que Ishida conhece Sada, uma ex-prostituta que trabalha como empregada doméstica em sua casa. E é ela quem conduz o amado aos limites de um mundo intenso e proibido, no qual o prazer se torna obsessão.

Em suas quase 2h de duração, tudo é mostrado. Literalmente. Não existe censura aos corpos: a nudez é abundante e frontal; o sexo é explícito. Os fetiches estão todos lá: voyeurismo, masoquismo, dominação, estrangulamento… E até alguns para estômagos mais fortes, como sexo envolvendo comida e mutilação. Tanto que, na primeira vez em que o filme foi exibido na TV de Portugal, ficou famosa a opinião do arcebispo D. Eurico Nogueira: “Aprendi mais em meia hora de Império dos Sentidos do que em 67 anos de vida”.

OBSCENIDADE?

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Mas o mais interessante é que, por mais que tudo seja explícito, é impossível se excitar com o filme. Pelo contrário. Primeiro vem o choque, às vezes desconforto e depois vem a naturalização. É isso que afasta o filme de Nagisa Oshima da pornografia, pois o sexo não está ali para nos dar prazer: esta “obscenidade” vai questionar construções sociais e morais. “O conceito de ‘obscenidade’ é testado quando nos atrevemos a olhar para algo que desejamos ver, mas que somos proibidos de olhar. Quando tudo é revelado, a ‘obscenidade’ desaparece e há uma libertação. Mas quando o que se queria ver não é suficientemente mostrado, o tabu e a obscenidade permanecem”, ele defendia.

Na superfície, conforme o sexo se torna mais brutal, mais os protagonistas se entregam à paixão, sem pudores. É nesta cumplicidade que o relacionamento avança, a ponto de sinalizar uma tragédia anunciada. Já num sentido mais amplo, as aventuras sexuais são apenas uma alegoria para o escapismo. O Império dos Sentidos se passa em 1936, quando o Japão se militarizava para entrar na Segunda Guerra Mundial. Neste cenário, os protagonistas usam o sexo como válvula de escape. Se não podem mudar a realidade política, eles decidem buscar a liberdade quebrando a moralidade. É um casal que criou seu próprio mundo.

SEXO VENDE (E CENSURA)

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Ainda assim, é claro que o sexo rouba a atenção. Mesmo sendo o filme de sexo explícito menos erótico da história, Império dos Sentidos sofreu restrições por onde passou. Primeiro, precisou ser finalizado na França, pois o Japão impôs uma censura severa à película, além de processar o diretor. Depois, a atriz Eiko Matsuda, que gravou todas as cenas de sexo sem usar uma dublê de corpo, precisou deixar o país por causa da polêmica.

As sanções continuaram durante seu lançamento. O longa foi rejeitado pelo Festival de Cinema de Nova York, teve cenas cortadas e reeditadas para estrear na Inglaterra e aqui no Brasil ficou 4 anos proibido de chegar às salas de cinema. Ainda hoje, por exemplo, o Japão nunca viu o filme em sua totalidade, já que as cenas de sexo são censuradas com borrões e tarjas nos órgãos genitais. Mas claro que tanta polêmica também trouxe atenção. No Festival de Cannes, o filme precisou ser exibido 13 vezes para dar conta de toda a demanda, de onde saiu louvado como um grande experimento artístico e narrativo.

Não é à toa que coloquei Cinquenta Tons de Cinza e O Império dos Sentidos em lados opostos. Afinal, 40 anos após o lançamento deste clássico, o senso de obscenidade ainda é um empecilho para uma obra sobre aventuras sexuais. Assim, nada mais apropriado que Cinquenta Tons seja o filme erótico que os anos 2010 merecem: higienizado, puritano, retrógrado e conservador. É um lembrete inquestionável de que as nossas lutas, amarras e tabus continuam os mesmos.

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Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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