Salada de Cinema

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cine clássicos: Hollywood, terra de abusos

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Por mais que o cinema nos traga grandes experiências, de tempos em tempos somos lembrados de que nem tudo é diversão na capital da sétima arte. É só pegar o caso do ator Casey Affleck, favorito ao Oscar por Manchester À Beira Mar. Junto com seu favoritismo, voltaram com força as denúncias de que ele assediou moral e sexualmente uma produtora e uma diretora de fotografia do documentário I’m Still Here, que ele dirigiu em 2010.

Embora estes casos comecem a sair das sombras, infelizmente eles não são recentes. Pelo contrário! Muitos clássicos do cinema também são recheados de histórias proibidas envolvendo astros de primeira grandeza. Quer ver só?

ESTUPRO E MANTEIGA

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Você consegue seu primeiro papel de destaque, será dirigida por um grande diretor e vai atuar com uma lenda do cinema. Foi o que fez Maria Schneider entrar em Último Tango em Paris, do diretor Bernardo Bertolucci e com Marlon Brando no elenco. O que ela não imaginava é que a cena mais conhecida do filme – aquela em que Brando usa manteiga para estuprá-la – seria um pesadelo.

Em 2007, a atriz contou a um jornal que a cena não estava prevista no roteiro e foi filmada sem seu consentimento. “Eles só me contaram quando íamos filmá-la e eu senti muita raiva. Eu devia ter chamado meu agente ou meu advogado, você não pode obrigar alguém a fazer o que não está no roteiro. Mas, naquele tempo, eu não sabia disso. Durante a cena, mesmo lembrando que não era real, eu estava chorando de verdade. Eu me senti humilhada e, para ser honesta, um pouco estuprada por Marlon e Bertolucci”, ela revelou.

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Apesar da gravidade, a acusação só ganhou proporção em 2016, quando um site espanhol divulgou um vídeo de Bertolucci confirmando que Schneider não sabia da cena. “Eu não podia contar para Maria o que ia acontecer porque queria a reação dela como garota, não como atriz. Eu não queria que ela fingisse humilhação e raiva, mas sim que sentisse a raiva e a humilhação”, ele confessa.

Muita gente minimiza a denúncia alegando que não houve sexo de verdade na cena, um pensamento que ignora que não precisa haver penetração para haver abuso sexual. Mas, mesmo desconsiderando o sexo, o incidente revela abuso de poder por parte de Bertolucci. Afinal, qualquer atriz é capaz de representar o desespero de um estupro sem precisar ser enganada. Último Tango em Paris traumatizou tanto a atriz que ela nunca mais fez cenas de nudez e sua vida foi marcada pela depressão, pelo consumo de drogas e por tentativas de suicídio. Sem contar que ela nunca perdoou Bertolucci.

PÁSSAROS VINGATIVOS

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Hitchcock é, sem dúvida, um dos maiores nomes do suspense. Porém, o que pouco se diz é que seus sets também eram um verdadeiro terror. Que o diga Tippi Hedren! Seus relatos originaram o telefilme The Girl, em 2012, e ela contou mais detalhes em sua autobiografia, lançada no ano passado.

No set de Os Pássaros, primeiro Hitch ordenou que o elenco não conversasse ou tocasse na atriz. Depois, partiu para o assédio sexual. O diretor chegou a pedir que ela o tocasse e tentou beijá-la em sua limusine. Acuada, Tippi aguentava tudo em silêncio porque “assédio sexual e perseguição eram termos que não existiam naquela época”. Além disso, pesava o prestígio do diretor. “Qual de nós dois era mais valioso para o estúdio, ele ou eu?”, ela lamenta.

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Diante da rejeição, Hitchcock começou a se vingar. O episódio mais conhecido é a cena em que Tippi é atacada por pássaros no filme. Apesar de dizer que usaria animais mecânicos, o diretor utilizou aves de verdade, fazendo a atriz ser bicada e machucada durante cinco dias de filmagem, além de quase perder um olho. “Eu só me sentava no chão, incapaz de me mexer”, ela revela.

Por causa de seu contrato de 5 anos, a atriz foi obrigada a fazer mais um filme com o Hitchcock, Marnie – Confissões de Uma Ladra. E os abusos continuaram, a ponto de o diretor invadir seu camarim e colocar as mãos nela. “Foi sexual, foi perverso! Quanto mais eu lutava para me soltar dele, mais agressivo ele se tornava”, ela conta. Após o longa, Tippi cumpriu o resto do contrato sem filmar novamente e só voltou a trabalhar com a morte de Hitchcock, em 1980.

SANGRANDO NA CHUVA

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Quem vê a alegria de Cantando na Chuva, não imagina que a atriz Debbie Reynolds sofreu nas mãos do astro Gene Kelly. Em sua autobiografia, Debbie conta que ganhou o papel contra a vontade do ator, que também era coreógrafo e diretor do longa. “Ele criticava tudo que eu fazia e nunca me dava uma palavra de motivação. Eu não era dançarina e tinha que correr atrás de tudo que Gene e Donald O’Connor [a outra estrela do filme] fizeram a vida inteira”, ela relata. As coisas iam tão mal que um dia, prestes a pedir demissão, o ator Fred Astaire encontrou Debbie chorando embaixo de um piano. Foi ele que salvou a estrela e lhe deu aulas particulares.

Ainda assim, a novata não recebia a menor compaixão. Após a filmagem da “Good Morning”, que durou das 8h da manhã às 11h da noite, os pés de Reynolds ficaram em carne viva. “Nunca trabalhei tanto quanto em Cantando na Chuva. Dançava oito horas por dia e meu corpo inteiro doía, principalmente meu cérebro e meus pés”, ela revela. E mesmo cenas inofensivas, como o primeiro beijo entre Debbie e Gene Kelly, traziam situações desagradáveis. “Gene me segurou forte… e enfiou a língua inteira na minha boca. ‘O que você está fazendo?’, eu gritei, e corri alucinadamente pelo set pedindo uma Coca-Cola para limpar a boca. Nós estávamos nos anos 50, eu nunca tinha dado nem um selinho. Eu me senti violentada”, ela confessa.

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Cantando na Chuva alçou Debbie ao estrelato, mas mesmo assim os abusos continuaram. Nas filmagens de A Festa de Casamento, a atriz foi novamente escalada à revelia do diretor Richard Brooks. “Ele não fazia a menor questão de esconder seu desdém. Todo dia ele era grosseiro e uma vez me deu um tapa na cara na frente de toda a equipe”, ela conta. Já em Give A Girl A Break, Debbie foi assediada pelo ator e coreógrafo Bob Fosse. “Durante os ensaios, ele vinha por trás e me encoxava, usando apenas aquela malha fina de dançarino. Era incrivelmente desagradável! E Bob ignorava todos os meus sinais de incômodo”, ela descreve. A situação só parou quando Debbie comprou um protetor genital e deixou em seu armário.

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E então, como você interpreta essas histórias? O que importa é a genialidade de um artista e as obras que ele produz ou esses detalhes obscuros diminuem sua qualidade artística, mostrando que não há talento que sobreviva a posturas antiprofissionais e abusivas? Eu, pessoalmente, tendo a tomar o segundo caminho.

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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