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Multiela: Horace and Pete: a melhor (web)série de 2016 que ninguém viu

por Vito Antiquera comentários

Nossa proposta aqui do MultiTela sempre foi tentar mostrar e dar visibilidade para coisas boas e que, por não estarem no cinema ou até mesmo na TV, poderiam passar batido. Muitas vezes colocamos coisas que estão perdidas no catálogo do Netflix, ou mesmo soltas descompromissadamente em qualquer on-demand das TVs a cabo. Infelizmente, não é esse o caso de Horace and Pete, websérie de 10 episodios criada, produzida, escrita, dirigida e protagonizada por Louis C.K. – e que foi a melhor (nova) obra feita pela produção de entretenimento nos Estados Unidos em 2016.

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Pessoalmente, confesso que Louis nunca me cativou por completo. Com sua série homônima na FX no currículo e muitos anos de estrada como comediante stand-up e roteirista de diversos projetos da TV, seu jeito peculiar é um pouco difícil de digerir. Seu senso de humor é muitas vezes no limite entre o otimismo e um pessimismo quase nietzschiano – e exatamente por essa abordagem bem dicotômica da vida que ele tem essa essência meio única. Minha impressão era sempre que ele fazia drama tentando fazer comédia, e que por mais interessantes e inteligentes que seus textos/esquetes/séries fossem, faltava alguma coisa. E é com Horace and Pete que ele consegue mostrar algo que sempre tentou, alcançando uma simbiose que parecia impossível.

Logo no primeiro episódio, nos encontramos diante de um cenário de sitcom – direção de arte, posicionamento de câmera, iluminação – em um bar no Brooklin chamado Horace and Pete. Esse estabelecimento, que completa cem anos em 2016, sempre foi comandado por um Horace e por um Pete da mesma família em toda a sua existência, passado de geração para geração. No momento, o Horace é o próprio Louis e Pete é interpretado por Steve Buscemi. Horace tem uma ex-mulher (Laurie Metcalf, incrível em um único episodio, mais conhecida como a mãe de Sheldon em Big Bang Theory) e dois filhos, mas somente mantem contato com um deles, Alice (Aidy Bryant). Pete sempre esteve e permaneceu no bar por diversos motivos – que, de maneira orgânica, serão entendidos e acompanhados no decorrer da série. E ainda temos Sylvia (Eddie Falco, a Meryl Streep da TV americana), irmã de Horace, e Tio Pete (Alan Alda, excelente) – o dono do bar antecessor, mas que ainda se faz presente.

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Além do eixo central, ainda temos alguns habitues do bar, personagens vividos por atores consagrados – por exemplo, Jessica Lange (American Horror Story) é Marsha, uma prostituta que foi a última namorada do pai de Horace e que Tio Pete insiste em manter no ambiente. Tudo é extremamente familiar, com todos os benefícios e (des)moralizações que toda família tem, incluindo (principalmente) os dramas e vícios repassados geracionalmente como se fizessem parte do DNA de cada um dos envolvidos. Por isso, Horace e Pete são apresentados como seres frágeis e indecisos, resultado de um emaranhado de imbecilidades que as pessoas costumam chamar de tradição.

E é nesse ambiente cheio de possibilidade que Louis constrói um grande mosaico de sentimentos e sensações, envolvendo personagens aparentemente depressivos, mas simplesmente cotidianos. Uma tragédia grega em formato de sitcom, onde tudo é trágico e cômico, mas não tragicômico; não estamos rindo da vida, e sim com a vida. É um drama tão real que não tem como ser cômico porque as coincidências não são o engraçado da vida, mas sim as próprias situações avassaladoras em que a única coisa que temos a fazer é sorrir de felicidade, de desespero, de incerteza.

São tantos momentos brilhantes e filosóficos que é muito difícil citar algum – principalmente porque as conversas sobre politica, misoginia, feminismo, vida, existência, entre outros, ocorrem de maneira tão natural exatamente porque são conversas de botequim como temos em nossas vidas reais. No entanto, é no desenrolar do terceiro episódio, em um papo entre Louis e sua ex-mulher (algo que dura à totalidade de 50 minutos que parecem cinco), que vemos a genialidade e total domínio de roteiro e encenação desse comediante que poderia muito bem ser um filósofo. Em uma conversa franca e aberta, ela conta os problemas emocionais e sexuais que seu o casamente traz – e nisso há remorso, culpa, projeção. E Horace ouve como nós, como a vida – mostrando que sempre estamos em grandes conversas conosco e com os outros na tentativa de nunca estarmos sozinhos. É um deleite que lembra o velho clichê, em que se chora enquanto ri e se ri enquanto chora.

Portanto, faça como esse antigo-ressabiado/atual-fã rendido de Louis C.K: baixe e veja essa web-série, que esta disponível pra compra no site do próprio autor; é sintomático até, exatamente pelo teor aparentemente tão depressivo, que ele tenha penado bastante para finalizar esse projeto. E ainda o fez em condições financeiras complicadas, quase falindo e terminando com recursos próprios – porque os produtores voltaram atrás quando as gravações já tinham começado. Mas querem saber? Ao final da obra, com tanta coisa agridoce, triste e única, fica claro que nem Louis nem você têm do que se arrepender.

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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