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cine clássicos: Por que Star Wars cativa tanto?

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Um ano depois do lançamento de O Despertar da Força, mais uma vez o universo Star Wars está agitado, agora com a estreia de Rogue One. E, pelo menos pra mim, é impressionante notar a histeria que a franquia consegue criar mesmo 40 anos após seu lançamento! Mais impressionante ainda se lembrarmos em que 1977, quando Uma Nova Esperança chegou aos cinemas, o filme não contava com a confiança de ninguém: os atores achavam uma grande baboseira, o estúdio sentia cheiro de fracasso e George Lucas teve até um princípio de infarto por causa da pressão.

Mas se o prognóstico era tão ruim, o que explica a franquia ser este fenômeno tão intenso, popular e duradouro?

“PODEROSO VOCÊ SE TORNOU”

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Primeiro de tudo, George Lucas fez a escolha certeira na hora de estruturar seu universo, apoiando-se no modelo mais tradicional de contar histórias: a jornada do herói. O esquema, que foi alvo de vários estudos do antropólogo Joseph Campbell, é o que liga narrativas tão diferentes como a Odisseia da Grécia Antiga, a trajetória religiosa de Jesus Cristo e até a aventura de Neo em Matrix.

Para quem não conhece a jornada do herói, ela é estruturada em 12 fases. Começa com o protagonista vivendo sua vida normalmente até que precisa enfrentar um problema que só ele pode solucionar. A princípio, nosso herói resiste, mas um mentor logo aparece para guiá-lo numa trajetória em que ele vai se autoconhecer, enfrentar desafios, passar por provações e enfrentar situações de vida ou morte. No final, ele vence a batalha e pode voltar para casa. Ou seja, só por este resumo, dá pra enxergar a vida do Luke Skywalker, né?!

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Embora seja esquemática e até clichê, a jornada do herói é um percurso narrativo aberto o suficiente para ser preenchido com qualquer tema e ainda assim ter uma cara original. E o mais importante: mesmo sendo totalmente conhecida pelo público, esta estrutura não lhe causa repulsa ou déjà vu. Pelo contrário, é justamente esta familiaridade que ativa as emoções mais primárias e nos leva a um terreno conhecido do imaginário coletivo. O resultado é que você sabe para quem torcer, se identifica com o herói e mergulha de cabeça em cada etapa desse percurso.

“EU SOU SEU PAI!”

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Com a forma definida, George Lucas começou a preenchê-la com temas universais, capazes de dialogar com pessoas do mundo inteiro e de todas as idades. Apesar de ser uma história espacial, Star Wars não é uma franquia sobre tecnologia ou ciência: ela fala basicamente de sentimentos familiares.

A primeira trilogia (A Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi) é uma grande narrativa sobre a relação conturbada entre pais e filhos e sobre como este amor familiar pode redimir e trazer luz para escuridão. É sobre um filho rejeitado que desbloqueia sentimentos no coração de seu pai. E é sobre um pai que sacrifica sua vida e a causa pela qual tanto lutou para salvar o filho.

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Mesma a segunda trilogia – com um conteúdo político muito mais intenso – é estruturada na revolta que Anakin sente por não ter protegido sua mãe e no medo que ele têm de perder a esposa. Sua migração para o Lado Negro, no fim das contas, é guiada pelo desejo nobre – ainda que egoísta – de livrar seus entes queridos da morte. E, pelo que O Despertar da Força já demonstrou, a nova trilogia deve seguir o mesmo caminho, com a tragédia envolvendo Han Solo e Kylo Ren e o mistério sobre a origem familiar da jovem Rey.

Além da mensagem familiar dominante, Star Wars ainda toca em outros temas de forte identificação, como a luta pela justiça. É uma grande fábula sobre como devemos vigiar os poderosos para evitar a tirania e fala muito sobre a esperança de derrubar governos opressores. Um pensamento que ecoa fora da tela e se relaciona com centenas de movimentos sociais ao redor do globo.

“QUE A FORÇA ESTEJA COM VOCÊ”

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E, por último, Star Wars continua sendo uma potência pela experiência emotiva que proporciona, criando laços afetivos e reforçando-os através do tempo. Para muitos dos fãs adultos, a aventura de Luke Skywalker foi a primeira e mais límpida lembrança cinematográfica da infância, aquela que definiu para sempre o amor pela sétima arte. Luke, Han, Léia, R2D2 e C3P0 são praticamente membros da família e isso explica a histeria a cada lançamento: é a chance de reencontrar esses personagens tão queridos!

Sendo uma franquia de público familiar, revisitar Star Wars também remete à nossa própria história. É a oportunidade de reviver aquele domingo em que vimos as lutas com sabres de luz com nossos pais, uma experiência que fica ainda mais intensa se um desses familiares já faleceu e os filmes funcionam como um elo para a saudade. E o mais bacana é que esse ciclo não se encerra, pois criamos novos laços ao também iniciar nossos filhos neste universo.

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Por último, Star Wars ainda é um daqueles poucos eventos coletivos que nos unem a outras pessoas, um imã que gera novas amizades imediatas após discussões acaloradas sobre qual é o melhor filme. Em um mundo cada vez mais individualista, é um fenômeno que nos coloca para fora da nossa bolha social. E isso já é motivo suficiente pra termos uma franquia duradoura!

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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