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cine clássicos: Os erros do remake de Rocky Horror

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Um dos maiores fenômenos cult do cinema até hoje vem de onde menos se espera: um musical com referências a filmes de terror e cujo roteiro exige a suspensão da descrença do primeiro ao último take. Desde 1975, The Rocky Horror Picture Show lota exibições à meia-noite, faz um punhado de fãs imitarem seus personagens e se mantém atual e divertido. E justamente estes ingredientes pesaram na hora de refazer o filme para comemorar seus 40 anos. Com um ano de atraso, a Fox estreou agora no final de outubro uma nova versão feita para TV e que devia homenagear o legado do filme original. Devia, pois o resultado tem três grandes defeitos.

PARA NÃO CHOCAR A FAMÍLIA AMERICANA

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Primeiro de tudo, a refilmagem parece ter um erro significativo de tom. Um dos destaques de Rocky Horror sempre foi sua pegada libertária e libertina, com personagens que representam tipos excluídos e que subvertem normas sociais. Basta pegar como exemplo o cientista Frank-N-Furter. Andrógino e apresentado como “um doce travesti da Transilvânia Transexual”, é um personagem anárquico e chocante, que vira de ponta-cabeça os conceitos de masculino e feminino.

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Porém, nas mãos de Kenny Ortega, diretor de filmes do Disney Channel como a franquia High School Musical, o novo remake passou por uma forte higienização. Saíram de cena as insinuações sexuais, a importância do desejo nas relações entre os personagens e até o clássico movimento de quadril da música Time Warp ficou em segundo plano. Para chocar menos, o humor provocativo do original se tornou uma caricatura uma escala acima do normal. Tudo bem que Rocky Horror sempre foi uma paródia com atuações exageradas, mas a nova versão soa apenas boba, pueril e banal. Falta imperfeição a personagens, cenários e figurinos polidos demais, ainda mais porque a “sujeira” de 1975 foi tão importante que influenciou até o visual do movimento punk.

UMA PEDRA CHAMADA FRANK-N-FURTER

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Para chegar ao segundo problema, é um só pulo pra esquerda: o papel do cientista Frank-N-Furter. Mesmo só dando as caras após meia hora de filme, ele é o grande protagonista de Rocky Horror Picture Show, é quem move o roteiro adiante. E o desempenho de Tim Curry no original é tão magistral que dá vida a um personagem carismático e difícil, que navega pela sensualidade, dissimulação, luxúria e fragilidade.

Frank-N-Furter é aquele papel que requer um intérprete de muitos recursos, coisa que infelizmente a atriz Laverne Cox ainda não possui. Destaque da série Orange Is The New Black, seu magnetismo ilumina a tela, mas é nítida a dificuldade que ela encontra para vencer as nuances da cientista e acertar seu timing cômico. Embora seu desempenho melhore nos números musicais, quando entrega uma voz segura e movimentos coreográficos graciosos, o encanto se perde assim que ela vocaliza o primeiro diálogo entre uma canção e outra. Logo, fica difícil manter de pé um filme em que a própria protagonista não se sustenta.

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É importante lembrar que a escalação de Laverne atende a uma necessidade urgente na indústria do entretenimento: representatividade. É louvável que uma cientista transexual – ainda que muitos fãs não considerem Frank-N-Furter trans – seja interpretada por uma atriz transexual, já que existem tão poucos papéis para atores LGBTs no mercado. Meu receio é de que o desempenho problemático de Laverne fortaleça o discurso de que é melhor escalar um ator heterossexual com bons recursos dramáticos do que investir na inclusão de atores e atrizes trans. Ainda mais porque a fraca atuação da atriz não é culpa unicamente dela, mas sim da pífia direção de Kenny Ortega – que já demonstrou ser bastante limitado na condução dos atores.

ROCKY HORROR SEM ROCK

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E, por último, há um problema de identidade – ou falta dela – nos aspectos visual e sonoro, dois ícones de The Rocky Horror Picture Show. Embora seja interessante perceber que o remake assumiu o risco de não reproduzir o original frame a frame, as escolhas criativas de Kenny Ortega soam incômodas. O remake praticamente abandona o rock e o substitui por uma sonoridade extremamente pop. É como se Katy Perry cantasse a safadinha Touch-A, Touch-A, Touch Me ou o elenco de High School Musical interpretasse Time Warp. Sem falar que os vocais valorizam a gritaria dos reality shows musicais como X-Factor e The Voice.

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Para enterrar de vez os momentos musicais, Ortega joga no lixo os elementos visuais mais icônicos de Rocky Horror, começando pelo número de abertura sem os marcantes lábios vermelhos – que ganham apenas uma versão modesta e rápida nos créditos finais. E qual o sentido de Frank-N-Furter fazer sua entrada apoteótica mascarada e em cima de uma grua? Até o tributo da série Glee em 2010 conseguiu ser mais fiel ao espírito do musical, pois seus realizadores entenderam que alguns ícones podiam sim ser reinventados, desde que um mínimo de autorreferência fosse mantida.

A sensação ao final da refilmagem é de que ela não é o tributo que o filme original precisa, mas sim o remake que os tempos atuais merecem: uma releitura totalmente comercial, conservadora e puritana, que higieniza e pasteuriza tudo que fez o filme de 1975 ser um ícone de rebeldia e um lugar seguro para os desajustados. Como canta Frank-N-Furter em Don’t Dream It, Be It: não sonhe, seja. Então se é para ser uma homenagem, que seja de verdade. Até porque será impossível lembrar desta nova versão daqui a 40 anos.

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Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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