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multitela: American Crime Story e o excesso de boa vontade com Ryan Murphy

por Vito Antiquera comentários
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No Emmy desse ano nenhum nome saiu tão fortalecido quanto Ryan Murphy e seu American Crime Story (ACS), a mais nova antologia que pretende mostrar crimes históricos que aconteceram nos Estados Unidos. Na contagem final, ACS saiu com nove prêmios – contando os quatro recebidos em noites que antecedem a premiação e destinados às categorias técnicas, além dos cinco (e quase todos os) prêmios da categoria de “Minissérie ou Série Limitada” (ou séries com temporadas que contenham histórias independentes), incluindo Melhor Série, Melhor Ator (Courtney B. Vance), Melhor Atriz (Sarah Paulson), Melhor Ator Coadjuvante (Sterling K. Brown) e Melhor Roteiro.

Afinal, a série é tão boa assim? Na verdade, não é. Porém, como qualquer academia ou associação, o grupinho dos profissionais de televisão que formam o corpo de votação do Emmy também têm seus favoritos e suas mesmices. Murphy é uma figura muito importante na conjuntura atual da televisão dos Estados Unidos – e isso, basicamente, porque tem sucesso em algo muito difícil, que é angariar audiências crescentes tanto para canais da televisão aberta (FOX) como para canais pagos (FX). Há anos suas produções (em essencial, American Horror Story) emplacam indicações significativas no Emmy – mas somente saiam de lá com premiações técnicas ou de atuação. Por isso, a vitória esmagadora de ACS é muito mais um fenômeno de resistência ao entretenimento alternativo (como o streaming do Netflix ou qualidade quase elitista da HBO) do que merecimento.

Essa primeira temporada conta a história do crime e do julgamento de O.J Simpson (Cuba Gooding Jr.), um ídolo do futebol americano da década de 1990 que foi acusado de assassinar em 1994 sua ex-esposa, Nicole Brown, e seu suposto namorado, Ron Goldman. Baseado no livro de Jeffrey Toobin intitulado The Run of His Life: The People v. O. J. Simpson, a série se desenrola em dez episódios demonstrando não somente a noite do crime em si, mas também os meses subsequentes do julgamento de Simpson; de um lado, a promotoria moralmente inabalável (mérito e demérito, obviamente) nas figuras da promotora Marcia Clark (Sarah Paulson) e do promotor-assistente Christopher Darden (Sterling K. Brown). Na parte da defesa, está o melhor amigo de Simpson, o ainda não-celebridade Robert Kardashian (David Schwimmer), o advogado superstar Robert Shapiro (John Travolta) e Johnnie Cochran (Courtney B. Vance) – porta-voz de sua comunidade contra o racismo institucional.

A abordagem dos momentos de julgamento é sóbria – ou, ao menos, o máximo possível em uma produção com o selo Ryan Murphy. Há belos momentos cheios de humanismo, nos quais não há nenhuma trilha sonora exacerbada nem mesmo recursos de montagem recortada. A edição é excelente, alternando entre cortes mais rápidos e planos abertos ou fechados mais extensos, sempre ressaltando o primoroso trabalho de atores.

Independentemente disso, os roteiros aproveitam o melhor dos meandros e escândalos do caso contra Simpson, e sempre expõem detalhes que poderiam passar despercebidos. O enredo deixa claro como essa cobertura midiática excessiva, que ainda era uma novidade no começo dos anos 1990 e seria uma preconização da “viralização” em tempos de internet, foi utilizada como recurso da defesa manejado por Shapiro (John Travolta, um equivoco do inicio ao fim, compondo com rosto congelado e sem nenhuma verossimilhança); algumas referências às celebridades sem mérito que são as Kardashian, com observações bem humoradas do próprio Robert (Schwimmer, esforçado, mas sem justificativa pra uma Indicação como Melhor Ator Coadjuvante), são uma alfinetada cirúrgica que demonstra a personalidade de Murphy ao contar uma história.

Mesmo assim, e apesar de Murphy ter dirigido com louvor alguns episódios, parece que mais uma vez o maior mérito do seu trabalho está transfigurado na excelência dos intérpretes – apesar de um Cuba Gooding Jr. compondo Simpson com um caleidoscópio de histrionismo e cacoetes. Sarah Paulson, Sterling K. Brown e Courtney B. Vance compõem uma tríade inabalável – e, não curiosamente, saíram todos premiados do Emmy. Paulson recebeu seu tão merecido troféu após cinco anos e seis indicações consecutivas, compondo com delicadeza e sobriedade uma promotora que sofreu ataques misóginos e passou por todos os problemas que um julgamento transformado em circo midiático pode causar. Vance compõe seu Cochran com todo pedantismo e exagero que seria necessário, mas nunca ultrapassando os limites da caracterização. O maior destaque, no entanto, fica para Brown, que tem uma expressão extremamente marcante, com olhos que devem ser os mais expressivos de todos os tempos da última temporada na televisão americana.

Ao final, mesmo sendo um ótimo entretenimento e um bom produto como série limitada, American Crime Story por si só não justifica a enxurrada de prêmios ou mesmo o excesso de boa vontade da critica especializada; é um produto acima da média somente se usarmos a régua de medição da própria carreira de Ryan Murphy. É uma obra com menos estrelismos e personalismos e mais consistência dramática, seja por sobriedade dos roteiristas ou mesmo pela somatória fora do comum do talento de seus intérpretes. Na lista do Emmy, tínhamos Fargo, American Crime e até mesmo The Night Manager – produções mais significativas e consistentes por escolhas dramatúrgicas, roteiros brilhantes e/ou estéticas mais interessantes. Num grande paralelo de coincidências, se o estrelato ganhou de qualquer evidência na historia de O.J. Simpson, podemos dizer que o mesmo aconteceu com Murphy e seu inegável talento para vender a própria visão de mundo.

Assista ao trailer de ‘American Crime Story’:

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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