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Festa da Salsicha (2016)

por Thiago Nolla comentários
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Vamos falar de frescor: a mais nova animação para adultos de Seth Rogen, “Festa da Salsicha”, é como a maioria de seus bons trabalhos – um pacote ilusório. O roteiro que ele e seu colaborador usual (Evan Goldberg) escreveram, em conjunto com Kyle Hunter e Ariel Shaffir, parece a princípio apenas antropomorfizar a comida, levando o profano às prateleiras dos supermercados. Isso é levemente divertido, mas, como um donut fora de sua caixinha, ameaça apodrecer. 

Este supermercado é o que Erving Goffman pode chamar de uma completa instituição. Seus habitantes (comidas de todos os cantos do mundo) são mantidas em condescendência sob um sistema de crenças axiomático. Se eles são bons e obedecem aos deuses, eles serão um dia escolhidos e levados para o “Além Infinito” (para fora das portas automáticas). Mas eles só serão escolhidos se permanecerem puros de espíritos: os obsoletos e baderneiros são jogados em latas enferrujadas por um torturador sádico (na verdade, apenas um adolescente entendiado com seu trabalho). Este medo é o que previne as salsichas e os pães de se misturarem, apesar de seus impulsos para conjugarem.

Isso tudo é absurdo, mas é apenas a ponta do iceberg em um mundo muito bem construído nesta comédia inteligente. Nossa salsicha protagonista, Frank (dublada por Rogen) está apaixonado por sua colega de prateleira, Brenda (Kristen Wiig), um pão cujo sentimento é recíproco. Tudo vai bem no supermercado, com as comidas felizes cantando músicas de louvação aos deuses que um dia abrirão as portas para o paraíso – diferentemente de “Toy Story”, onde os humanos nunca estão em volta para pegá-los em ação, os humanos simplesmente não enxergam esta realidade. Mas quando um pote de mostarda e mel (Danny McBride) volta à loja com relatos de que os deuses na verdade são monstros sedentos por sangue, as coisas começam a mudar.

A primeira das inúmeras narrativas ocorre quando nossos heróis finalmente são selecionados, mas uma batida de carrinhos culmina no caos. Um saco de farinha rasgado torna-se o ápice catártico à la 11/9. Há uma quantidade assustadora de medo e terror durante as cenas subsequentes. Deve haver para que a comédia funcione. Eu pessoalmente ficaria OK em deixar as crianças verem essa lascívia boba, mas é o sistema imagético (com ares inclusive de O Resgate do Soldado Ryan) e os diálogos ácidos que irão assustá-los.

Despedaçados, Frank e Brenda devem voltar ao supermercado para avisar seus companheiros da verdade. Em seu caminho, encontram um bagel judeu (Edward Norton em uma das melhores representações de Woody Allen desde Rick Moranis) e um lavash árabe (David Krumholtz), cujas crenças no “Além Infinito” inclui ser mergulhado em 77 garrafas de azeite de oliva virgem. E à medida que embarcam na aventura, são perseguidos por uma ducha vaginal (Nick Kroll), que busca vingança após ter seu bocal quebrado por Frank.

Tal personagem é um estereótipo de ítalo-americanos. As caricaturas racistas existem em cada um dos corredores – um dos pontos fracos do filme. A comédia segue de forma muito dinâmica e ritmada até transformar um universo rico em simulacros das próprias piadas.

“Festa da Salsicha” também traz em seu elenco uma batata adorável, com olhos arregalados incrustados em seu corpo, cantando alegremente a música “Danny Boy” segundos antes de ter sua pele arrancada e gritando “Jesus, p***a!” num sotaque escocês muito bem utilizado. Sei lá, algumas coisas neste universo são simplesmente lindas.

Há bastante estupidez cômica em “Festa da Salsicha”, como quando humano tomando um longo banho de sais de repente consegue ver e ouvir a comida viva em sua casa, e um pedaço de chiclete mastigado caracterizado como Stephen Hawking; mas há uma rica mensagem (juro) também: sem estragar as surpresas e as viradas da narrativa ela se resume a não esfregar os erros na cara dos outros, por mais imbecis que eles sejam.

Em suma, “Festa da Salsicha” definitivamente não é o que parece ser. A química de seu elenco é tamanha que o próprio conceito de food porn é elevado a outro nível. A coisa toda é tão saborosa que você consegue se segurar apenas por breves segundos antes de atacar a mesa.

Assista ao trailer de ‘Festa da Salsicha’:

Studio na Colab55
Thiago Nolla
Thiago Nolla

Fã de carteirinha de Aronofsky e Burton, sempre tem um tempo pra ver um filme de animação. Ou intimista. Ou os dois. Também sonha em poder atuar com suas grandes inspirações – Viola Davis e Eva Green.

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