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cine clássicos: O faroeste morreu?

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Vocês já pararam para pensar que existe pelo menos uma semelhança entre os filmes de super-herói e os faroestes? E olha que nem estou falando do Chris Pratt, que lidera o remake de Sete Homens e Um Destino. Ainda que separados por muitas décadas e pela evolução dos efeitos especiais, esses dois gêneros cinematográficos – sim, porque os heróis das HQs já se tornaram praticamente um gênero à parte – compartilham a maldição de serem extremamente populares, mas receberem uma grande torcida de nariz da crítica especializada. Em outras palavras: dão dinheiro, porém não são relevantes para figurarem como arte.

Mas se os faroestes eram assim tão populares no passado, capazes de arrastar multidões para os cinemas, por que eles acabaram?

ERA UMA VEZ NO OESTE

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A ligação do faroeste com o cinema é tão antiga quanto a sétima arte, já que O Grande Roubo do Trem – o primeiro sucesso do gênero – foi lançado em 1903. Foi um pontapé inicial tão representativo que criou o gênero e também é tido como o marco-zero do cinema moderno. Foi graças ao longa que as filmagens começaram a ser feitas em locações, os primeiros movimentos de câmera surgiram e vários elementos de montagem se desenvolveram.

E é claro que um sucesso assim seria explorado com voracidade, ainda mais porque produzir um filme do gênero era fácil. Com roteiros baseados em livros ou ícones da história americana (como Billy The Kid ou Jesse James), bastava criar uma história focada no bem contra o mal e sem malabarismos.

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Junte a isso que um faroeste não exigia grandes investimentos. No cenografia, por exemplo, bastava uma única rua de terra, um bar, um banco, uma igreja e – no máximo – uma linha férrea para criar um vilarejo que podia ser reaproveitado em dezenas de filmes diferentes. Para completar, no começo do século Hollywood ainda era lugar rural, cheio de cowboys para participar como figurantes e cavalgar nas cenas de ação.

Com tanta facilidade, alguns estúdios chegavam a produzir um faroeste por semana, do roteiro à edição final. Só em 1909, por exemplo, dos 1.001 filmes criados nos EUA, 213 eram faroestes.

MATAR OU MORRER

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Ainda que ligado à história e à paisagem americanas, o western extrapolou as barreiras culturais e fez sucesso no mundo inteiro graças ao seus heróis universais: homens honrados, que venciam um ambiente inóspito para encontrar justiça ou garantir a integridade da família. Ou, então, trabalhadores que desbravavam um local selvagem atrás de uma vida melhor. Até a necessidade de matar era perdoada, pois ela surgia para defender sua dignidade.

Com tamanha penetração mundial, o faroeste transformou diversos atores em ídolo. John Wayne e Clint Eatswood que o digam! Mas a maior prova de sua influência talvez seja como o gênero se alojou na cinematografia de vários países. No Japão, o bangue-bangue está na raiz dos longas de samurai – Sete Homens e Um Destino, por exemplo, é a refilmagem americana de Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa – e aqui no Brasil o gênero é facilmente associado aos filmes de cangaceiros – teria sido, aliás, uma das influências para Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

O mais irônico é que, mesmo sendo o gênero mais americano do cinema, muitos faroestes reverenciados não foram criados nos EUA, mas sim na Itália.

A MORTE ANDA A CAVALO

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Apesar de resistir bravamente até os anos 1960, a partir desta década o gênero começou a dar sinais de estagnação. Mesmo com mudanças na fórmula, originando protagonistas próximos do anti-herói, o interesse do público se diluiu e a produção começou a desacelerar após seguidos fracassos de bilheteria. A ascensão de diretores mais críticos nos anos 1970 e a explosão da contracultura jogaram outra pá de cal no faroeste, deixando claro que não havia espaço para idealizar os valores americanos, reescrever a história de uma maneira mais nobre e muito menos exaltar a honra em uma sociedade em frangalhos.

Isso quer dizer que o faroeste morreu? Claro que não. O mais correto é dizer que ele está hibernando desde 1992, quando Clint Eastwood criou Os Imperdoáveis, que para muitos críticos é o último grande western do cinema. A realidade é que hoje o faroeste aguarda aquele filme que vai atualizar o gênero e mostrar que ele ainda pode ser um formato atrativo para o público e capaz de discutir problemas atuais. Basicamente, a mesma reinvenção que Moulin Rouge fez pelos musicais.

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Bons filmes dos anos 2000, como o remake de Os Indomáveis e a aventura tarantinesca de Django Livre, mostram que o salvador da pátria pode estar mais perto do que imaginamos. Mas uma coisa é certa: a solução não é transformar o faroeste em um filme de super-herói rural, como faz o remake de Sete Homens e Um Destino – basicamente, um Vingadores do agreste. Por isso, o jeito é continuar aguardando.

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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