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multitela: The Night Of: qualidade demais é um problema?

por Vito Antiquera comentários
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Ao saber que uma minissérie, série ou telefilme será lançado com a marca da HBO, o público já sabe que pode contar com um elevado padrão de qualidade. Isso quer dizer que ao menos algo será interessante; a fotografia, a direção de cena e/ ou a composição de ambiente serão de tirar o fôlego. Não seria diferente, então, com The Night Of, minissérie de oito episódios que estreou nos Estados Unidos e no Brasil, simultaneamente, em agosto desse ano – e que, infelizmente, se despediu de (nós) fãs já viciados nessas primeiras semanas de setembro.

Acompanhamos a história de Nasir “Naz” Khan (Riz Ahmed, minimalista), um americano descendente de paquistaneses que decide “pegar emprestado” o táxi do pai para ir a uma festa com amigos. No desenrolar da noite, Andrea (Sofia Black-D’Elia) cruza seu caminho, e eles acabam por aproveitar a noite juntos. No entanto, em determinado momento, Naz acorda e percebe que algo aconteceu – e é levado à delegacia, onde é abordado por John Stone (John Turturro), um advogado que tenta ajudá-lo.

No decorrer da série, acompanhamos os meandros do processo judicial estadunidense – sempre pela ótica dos envolvidos, sejam eles os responsáveis pela defesa de Naz (Amara Karan, em um trabalho expressivo e delicado) ou mesmo os policiais investigativos (o taciturno e eficiente Bill Camp). O mais interessante em termos de enredo é que nem Naz está certo de sua inocência, porque estava drogado e não lembra integralmente dos acontecimentos daquela noite – o que, sem dúvida, engrandece ainda mais a série.

Os bastidores da produção já são um atrativo; é uma história antiga de tentativas com a própria HBO. A série foi inicialmente produzida, encabeçada e protagonizada pelo saudoso James Gandolfini (Sopranos, só digo isso); naquele momento, foi rejeitada pela própria HBO, que se negou a produzir após ver um piloto. Após alguns anos, o projeto foi retomado por Steven Zaillian (Oscar de Roteiro por A Lista de Schindler) e Richard Price (um dos roteiristas de The Wire, uma das coisas mais complexas que vi na TV) – que, ao final e nos créditos, acabam por dedicar a produção a Gandolfini.

Nas mãos desses criadores/roteiristas, a minissérie ganhou uma roupagem mais abrangente, ainda mais se comparada à original produzida pela BBC em 2005. Por exemplo: há certa divisão de protagonismos entre Naz e o advogado justo/pragmático de Turturro – além do fato de que todos os personagens têm muita chance de ter uma vivência digna, com trajetórias bem amarradas para suas respectivas histórias. Isso é mérito de Zaillian (que também dirige alguns episódios), que é minucioso em construir histórias e tecer personagens críveis e interessantes do começo ao fim.

Price, por sua vez, trouxe a crueza de quem sabe como os meandros da realidade são duros – mas isso somente adicionou verossimilhança à trama, mesmo que seja em um tom que chega a incomodar um pouco. E é aqui que a qualidade técnica amaina esse excesso. Desde o começo, o cuidado com a fotografia e composição de cena, os enquadramentos, a direção de atores e o próprio roteiro têm uma qualidade de assombrar. É tudo extremante bem-feito, ao ponto de parecer calculado demais; uma composição que deixa nossa percepção viciada, causando certa dependência que inibe uma observação mais objetiva do enredo como um todo. No entanto, seria isso completamente positivo?

Na verdade, isso é excelente. Mas essa decupagem toda causa certo grau de inebriação, porque algumas coisas quase ruins passam despercebidas – como, por exemplo, chavões de roteiro e caracterização que somem em meio a tanta beleza e perfeccionismo. Por exemplo: a parte da cadeia e sua composição de cenas e personagens, com predisposição de estruturação de gangues, é extremante realista – assim como já vimos em Oz e outros inúmeros bons momentos da TV – mas todas as atitudes parecem girar em torno disso, o que seria não somente excessivo como algo desumano.

Nessa linha, entendemos que não é porque é verdade que deixa de ser lugar-comum, e a repetição também compõe certo clichê – tão como na delineação de John Stone, que têm alergias psicossomáticas e é cheio de manias e tiques de uma maneira tão bonitinha e bem encaixada, formando quase um novo arquétipo quase exato de anti-herói moderno. É algo que qualquer adorador de humanização vibra, celebrando a cada coceira do personagem.

Mesmo parecendo tudo meticulosamente calculado para parecer real, The Night Of é inebriante – e não deixa de ser ótima por causa disso. No entanto, entre perfeição plástica e discussões de verossimilhança, o que fica na memória é John Turturro (com ou sem alergias) porque o que realmente importa é o quanto John Stone acredita em Naz; são naqueles olhos e expressões faciais comuns – marejando enquanto discursa ou encontrando algo que faz sentido para o caso – que encontramos tudo que precisamos para entrar na história. Naquele cotidiano, no questionamento diário em relação às escolhas de vida, na opção de acreditar mesmo tendo dúvidas; é aí (e nele) que está a qualidade mais real de The Night Of.

Assista ao trailer de ‘The Night Of’:

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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