Salada de Cinema

Notícias, entrevistas, perfis e muito mais de tudo que acontece no mundo do cinema.

Salada de Cinema
Colunas

cine música: Trilha sonora para uma grande reportagem

por Camila de Lira comentários
Salada de Cinema

Não há nada que anime mais um jornalista do que a perspectiva de fazer uma grande reportagem, com uma grandessíssima investigação. E, apesar de, muitas vezes, o som que toca na cabeça de um repórter ser muito mais parecido com “Eye of the Tiger”, a música de Rocky Balboa, o som real se assemelha mais à trilha sonora de “Todos os Homens do Presidente” (1976).

Muito focado em palavras e nomes, “Todos os Homens do Presidente” é um filme cheio de informação, e, de certa forma, marcado pela sua realidade em demasiado. A película acompanha como os repórteres Bob Woodward (Robert Redford, maravilhoso) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman, meu amor) pesquisaram a famosa reportagem que retirou Richard Nixon do poder nos Estados Unidos.

A trilha, feita por David Shire, não é extravagante, nem muito musical. Ela é um lide, o nome que damos para o primeiro parágrafo de uma noticia: já denuncia ao que veio logo na primeira cena, com o som marcante e alto do teclar de máquina de escrever.

Como um bom filme de jornalistas – e direto dos anos 70, o teclar de máquinas de escrever é o que mais se escuta. Mas nenhum é igual ao primeiro som, tão altos que mais parecem tiros, certeiros, um após outro. O poder simbólico desse som é o que mais chama atenção: palavras são os tiros que derrubaram um presidente. Numa democracia real, esses são os sons mais temidos.

Salada de Cinema

Passado dentro de uma redação fictícia do “Washington Post” – o jornal declinou o pedido da produção para servir de cenário para o filme, então os produtores tiraram fotos de toda a redação, até as latas de lixo e a refizeram no set de Hollywood – o filme consegue representar, com sons, a realidade caótica que é trabalhar como repórter.

Numa das situações mais tensas do filme, quando Woodward consegue falar com Kenneth Dahlberg, banqueiro dono de um dos cheques usados encontrados com os invasores do prédio de Watergate, pelo telefone, o som mais alto que se escuta é de uma televisão e de muita conversa entre os repórteres ao redor de Woodward. O zunido quase impede o espectador de escutar o que o entrevistado fala, e, queridos saladinos, não se enganem: uma redação real é exatamente assim.

Outro momento em que a música se sobrepõe ao som das falas é, logo perto do final, quando Woodward entra no apartamento de Bernstein, estarrecido de descobrir, pela fonte anônima mais famosa da história do jornalismo (“Deep Throat”), que a investigação que os dois estão fazendo para a reportagem pode atingir Nixon. Assustado com o perigo da reportagem, Woodward liga o som de Bernstein bem alto, assim, ambos podem conversar sem temer que outros escutem. Num mundo em que a NSA é real – e também foi denunciada por uma grande reportagem – percebemos que esse grau de paranóia não é, em nada, obra de ficção.

Salada de Cinema

No final, a trilha consegue unir essas duas pontas do jornalismo: o suspense, que parece irreal para quem não é repórter, com uma única música tensa no começo do filme, e o palpável, com o barulho de vozes, teclas, discursos pela televisão e toques de telefone.

Studio na Colab55
Camila de Lira
Camila de Lira

Jornalista formada pela USP, é cinéfila desde os 4 anos de idade, quando assistia a filmes da Disney, da Turma da Mônica e de Chaplin.Sonha em acordar num musical ou em um filme de Fellini ou num clipe de David Fincher.

Veja todos os posts de Camila de Lira
Comentários
Follow my blog with Bloglovin